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MAIO AMARELO

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segunda-feira, 15 de abril de 2019

"A era dos radicalismos pode ser entendida como um reflexo da era da pós-verdade", diz Beatriz Buarque

"Nosso trabalho é único no mundo, pois somos a única ONG que coloca os jovens como principais desenvolvedores de estratégias contra diferentes tipos de extremismo", comenta Beatriz Buarque, fundadora do Words Heal the World. Com atuação no Brasil, Reino Unido e América Latina, o trabalho feito pela ONG inclui treinamento de alunos universitários, workshops em escolas de ensino médio, produção de documentários e campanhas de mídias sociais. Além de ajudar a promover o trabalho de 23 organizações parceiras que trabalham pela paz no mundo todo. Em entrevista ao P.IMPRENSA/Caminho Político , Beatriz fala do papel da mídia no combate ao terrorismo, da era dos radicalismos, e dos desafios e oportunidades na atuação do Words Heal the World.

Você afirma que “a batalha atual contra o terrorismo passa pela informação”. Qual é o papel da mídia neste sentido?
A mídia tem um papel fundamental no combate ao terrorismo porque apesar da ausência de uma definição única para o termo, muitos pesquisadores concordam que um ato terrorista é feito para enviar uma mensagem e atingir múltiplos alvos. A relação entre mídia e terrorismo é tão forte que alguns pesquisadores afirmam que ao falar de terrorismo em sociedades democráticas, estamos falando de mídia porque ela é frequentemente usada por grupos terroristas para amplificar ainda mais suas mensagens. Vou dar um exemplo recente: quando aconteceu o atentado em Christchurch na Nova Zelândia, o terrorista transmitiu sua ação ao vivo no Facebook e instantaneamente várias pessoas passaram a compartilhar o conteúdo. Eu não dormi aquela noite, fazendo um trabalho de formiguinha, tentando convencer as pessoas, uma a uma, a pararem de compartilhar, pois elas estavam fazendo exatamente o que o terrorista queria. Afinal, por que uma pessoa iria gravar um atentado em tempo real? Porque ela quer ser vista e os terroristas querem ser vistos e ouvidos.
Vivemos numa sociedade onde as mídias sociais passaram a definir a agenda das emissoras e, com isso, toda vez que um vídeo viraliza, ele frequentemente vai parar nas telas da TV. Com o atentado em Christchurch não foi diferente. Ao noticiar o assunto, várias emissoras brasileiras transmitiram parte do vídeo feito pelo terrorista, ignorando o apelo da primeira ministra Jacinda Ardem para que as pessoas parassem de replicar o vídeo. O que chamamos de sistema simbiótico do medo formado por mídia e grupos terroristas não é novo, mas ele parece estar sendo fortalecido com as mídias sociais, entre outros motivos, porque os terroristas fazem imagens de locais aos quais as emissoras não têm acesso e nas redações muitos jornalistas não possuem consciência da existência dessa simbiose e quase que automaticamente colocam no ar vídeos produzidos/distribuídos por terroristas. Se quisermos realmente combater o terrorismo, precisamos conscientizar as grandes corporações midiáticas (incluindo as redes sociais) e os jornalistas sobre o impacto de suas ações. Passei mais de dez anos da minha vida numa emissora de TV e sei que televisão é imagem. No entanto, hoje em dia a informação se tornou uma arma e precisamos evitar a todo custo servirmos de instrumentos para terroristas amplificarem suas mensagens. Vídeos produzidos por terroristas possuem efeitos diversos nos espectadores, mas de modo geral, vídeos com conteúdo violento podem provocar diferentes níveis de ansiedade, desinibir alguém que já possua comportamento violento, motivar uma pessoa a planejar uma ação para fazer justiça com as próprias mãos e inspirar ações semelhantes.
Alguém poderia, então, dizer “mas no Brasil não temos terrorismo” e eu respondo “você tem certeza?” No meu ponto de vista, os atentados em Realengo e Suzano foram ataques terroristas porque ambos os atiradores queriam passar uma mensagem, ambos diziam que estavam fazendo justiça e que queriam ser lembrados por seus atos. Isso fica ainda mais evidente no ataque de 2011, pois o atirador gravou um vídeo com as motivações, o qual foi reproduzido por nossas emissoras. Portanto, o papel da mídia no combate ao terrorismo atualmente é de vital importância. Temos apenas duas escolhas: ou continuamos sendo usados por grupos terroristas para amplificar suas mensagens ou passamos a avaliar com mais critério os vídeos que reproduzimos de modo que eles não inspirem novos ataques. Se queremos mesmo um mundo de paz, precisamos treinar nossos jornalistas (de TV, jornais, rádios e mídias digitais) para que eles reflitam duas, três vezes antes de reproduzir um conteúdo produzido por terroristas.
Na atualidade, o que mais traduz para você a “era dos radicalismos”, pensando na ligação com a mídia e com as estratégias midiáticas?
Penso que a era dos radicalismos pode ser entendida como um reflexo da era da pós-verdade, pois estamos numa sociedade na qual qualquer pessoa pode criar um conteúdo e distribui-lo nas redes sociais como se fosse verdade. Quanto maior for o apelo emocional da mensagem, maiores parecem ser as chances de ser recebida pelo público como verdade. Não é à toa que estamos assistindo a um crescimento no número de fake news e mensagens com teorias da conspiração. Pessoas com uma visão radical têm se aproveitado disso para conquistar adeptos e amplificar suas mensagens que frequentemente atribuem a culpa de todos os males do mundo a alguns grupos que, portanto, deveriam ser eliminados. Essas pessoas, na verdade, criam justificativas para atos de violência contra alguns grupos como homossexuais, judeus, muçulmanos, imigrantes, mulheres. São essas justificativas, os chamados discursos de ódio, que estamos vendo se multiplicar nas redes sociais. Já é comprovado que as redes sociais contribuem para a polarização na medida em que colocam junto pessoas com pensamentos semelhantes e, com isso, não oferecem uma maneira alternativa de pensar às pessoas que já possuem uma ideia pré-concebida. Uma outra relação que também vem sendo estudada é entre polarização e extremismo violento, uma vez que pessoas com ideias extremistas tendem a frequentar os mesmos grupos nas redes sociais e acabam reforçando entre si suas ideias e alimentando a crença de que a violência é necessária para atingir ou eliminar as pessoas que são vistas como uma ameaça.
Portanto, ao propiciar que pessoas com ideias semelhantes frequentem os mesmos grupos e recebam notificações de pessoas que também compartilham das mesmas ideias, as redes sociais estão alimentando a polarização, os discursos de ódio e o extremismo violento. Como combatemos isso? As grandes corporações de mídias digitais já estão cientes do impacto dos algoritmos e pode ser que venham a adotar alguma estratégia no futuro para reduzir o impacto dos chamados “eco chambers”. Mas cada de um de nós pode contribuir de algum modo para quebrar esse ciclo de ódio. Aqui vão algumas dicas: (1) Não compartilhar material produzido por terroristas; (2) Não compartilhar mensagens que incitem a violência contra quaisquer grupos de pessoas; (3) Não compartilhar mensagens de fontes as quais você não conhece porque podem ser fake news; (4) Compartilhar mensagens que promovam a paz, o diálogo, o respeito.
Há alguns anos, Nelson Mandela já falava sobre ódio e amor, que se as pessoas aprendem a ter ódio, elas também podem aprender a amar. Peço licença para parafrasear Mandela ao dizer que se as pessoas usam as redes sociais para promover o ódio, nós podemos e devemos usá-las para promover a paz porque o amor comunica mais rápido ao coração do que o ódio. Numa sociedade que é regida pela informação, ficar em silêncio não é uma opção.
No contato com a realidade do Brasil e de outros países, quais são os principais pontos semelhantes e divergentes no combate às ideologias extremistas?
Acredito que a Europa e os Estados Unidos estão muito mais avançados no combate ao extremismo do que a gente. Lá as autoridades monitoram os crimes de ódio, atuam em conjunto com entidades da sociedade civil para restringir o avanço de ideologias extremistas, criaram programas de combate à radicalização e a mídia parece também ter alterado – ainda que timidamente – sua atuação com relação à propaganda produzida por terroristas.
Aqui no Brasil, a única entidade que eu conheço que faz um trabalho fascinante de combate ao discurso de ódio na internet é a Safernet, oferecendo uma base de dados muito importante sobre as mensagens de ódio veiculadas no Brasil. Também temos algumas organizações que têm feito um trabalho muito bom de promoção da empatia e do diálogo, como ferramentas para combater quaisquer formas de extremismo e discriminação. Algumas delas são a Think Twice Brasil e a Carlotas. No âmbito religioso, o Centro Cultural Brasil-Turquia e a FAMBRAS têm procurado estimular o diálogo inter-religioso e a desconstrução de mitos que associam o Islã com a violência.
Com relação aos jovens, o trabalho desenvolvido pela ONG que fundei, o Words Heal the World, tem se destacado como pioneiro porque coloca os jovens como principais desenvolvedores de estratégias de combate a diferentes tipos de extremismo. Hoje somos ativos no Reino Unido, América Latina e Brasil, mas foi aqui, no Rio de Janeiro que tudo começou. Como se vê, temos algumas entidades da sociedade civil que estão trabalhando para combater o extremismo no Brasil – à semelhança de outros países. No entanto, no âmbito governamental e no âmbito midiático, o tema extremismo ainda é pouco falado e, por isso, nosso país ainda carece de um programa de radicalização, de monitoramento dos crimes de ódio, e de uma política de educação que capacite crianças e jovens a lidarem com conflitos de modo pacífico e a usarem as redes sociais de modo a promover a paz. Uma dessas ausências, o Words Heal the World irá suprir: vamos lançar o Mapa do Extremismo no Brasil ainda esse ano de modo reforçar a importância de monitorarmos os crimes de ódio, uma vez que precisamos saber a geografia desses crimes para podermos desenvolver estratégias mais eficazes de combate e, com isso, promover a paz não só nas redes sociais, mas também com os jovens e nas localidades onde os números são mais expressivos.
No trabalho com o Words Heal the World, quais têm sido os maiores desafios e as oportunidades?
O Words Heal the World foi registrado como ONG no Reino Unido recentemente, em outubro do ano passado, então, nosso maior desafio tem sido conseguir um patrocinador. Todo o nosso trabalho dentro e fora do Brasil tem sido feito sem recursos financeiros e isso inclui treinamento de alunos universitários, workshops em escolas de ensino médio, produção de documentários e campanhas de mídias sociais.
Quanto às oportunidades, como nosso trabalho é único no mundo, pois somos a única ONG que coloca os jovens como principais desenvolvedores de estratégias contra diferentes tipos de extremismo e eles também ajudam a promover o trabalho de 23 organizações parceiras que trabalham pela paz no mundo todo, estamos concorrendo a dois prêmios internacionais: o prêmio da Paz de Luxemburgo e o prêmio da ONU SDG Action Awards. Tenho sido convidada para algumas conferências no exterior para apresentar a metodologia que criei para combater o extremismo e isso tem sido muito enriquecedor!
Beatriz Buarque

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