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domingo, 16 de fevereiro de 2020

"Gigantes de mídias sociais põem eleições justas em risco'"

Pessoa anda em frente a uma placa com o símbolo de curtir do FacebookRelatório apresentado na Conferência de Munique alerta contra ampla utilização de plataformas para manipular votações. Texto lista propostas para garantir um pleito justo, com políticos e legisladores tendo papel-chave. Brasil e Estados Unidos não são os únicos países a realizarem eleições neste ano – cerca de 80 nações ao redor do mundo vão às urnas em 2020, segundo dados da Fundação Kofi Annan. Uma questão em particular paira sobre cada uma delas: como garantir a integridade das eleições contra atores estrangeiros e interesses domésticos diante das novas tecnologias, mídias sociais e desinformação que podem ser usadas para manipular eleitores em larga escala?
Um novo relatório divulgado pela Comissão de Eleições e Democracia na Era Digital da Fundação Kofi Annan tenta trazer respostas a essa pergunta. O documento foi apresentado na Conferência de Segurança de Munique, que transcorre na cidade do sul da Alemanha.
A comissão de especialistas se concentrou principalmente em países em desenvolvimento, já que, segundo o relatório, eles são particularmente vulneráveis a disputas sobre a legitimidade dos resultados de eleições, o que pode levar a violentos distúrbios sociais.
O texto afirma que a manipulação de pleitos nesses países geralmente não é identificada devido ao fato de que muitos não têm meios suficientes para monitorar eleições, nem instituições independentes que poderiam intervir quando a manipulação fosse detectada.
Uma previsão sombria do relatório é de que, "no futuro próximo, eleições em democracias do Sul Global serão pontos focais para discursos de ódio em rede, desinformação, interferência externa e manipulação doméstica".
Um dos apresentadores do relatório em Munique foi Toomas Hendrik Ilves, ex-presidente da Estônia. Seu país teve sua própria experiência com atores estrangeiros tentando usar tecnologias digitais para influenciar e manipular eleições. Em 2007, a Estônia, uma nação altamente digitalizada, foi alvo de uma ação maciça de hackers que quase paralisou o país.
Ciberataques atingiram agências e entidades governamentais, incluindo o Parlamento estoniano, a presidência e vários ministérios. Em 2009, um membro do Nashi, um movimento político juvenil que tem laços estreitos com o governo russo, assumiu a responsabilidade pelos ataques.
Cambridge Analytica: de Trump ao Quênia
Em conversa com a DW, Ilves mencionou as atividades da Cambridge Analytica, empresa de consultoria que esteve no centro de um escândalo após utilizar um aplicativo para recolher dados de milhões de usuários do Facebook, sem o conhecimento dessas pessoas, com intuito de fazer propaganda política.
A empresa não apenas desempenhou um papel fundamental no referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia e nas eleições presidenciais americanas que elegeram Donald Trump, ambos em 2016, mas também foi contratada para manipular ativamente várias eleições em países em desenvolvimento, afirmou o ex-presidente estoniano.
O relatório menciona dois exemplos concretos de tais manipulações: as eleições no Quênia em 2013 e em 2017. "Quando eles viram que seu plano funcionou, começaram a empregar métodos semelhantes em um contexto transatlântico", relatou Ilves.
Apelo a políticos e legisladores
A fim de proteger eleições como a espinha dorsal da democracia, o relatório da Fundação Kofi Annan lista 13 propostas. Uma delas é um apelo a candidatos e partidos políticos para que evitem utilizar práticas fraudulentas de campanha, como uso de material roubado ou imagens manipuladas.
O relatório conclama ainda os legisladores a elaborarem leis que descrevam claramente como deve ser uma propaganda política aceitável. Também pede que eles forcem as empresas de redes sociais a oferecerem dados abrangentes sobre quem exatamente pagou por anúncios políticos.
O texto deixa claro que gigantes de mídias sociais precisam melhorar sua transparência, fornecendo informações para instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil. Acima de tudo, essas empresas precisam permitir que usuários rejeitem, se assim desejarem, todas as formas de publicidade política direcionada a eles.
Alex Stamos, ex-diretor de segurança do Facebook e professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, foi um dos autores do relatório. Durante a conferência em Munique, ele deu um exemplo positivo de como companhias de mídias sociais e agências governamentais podem trabalhar juntas para garantir a segurança de eleições.
Stamos lembrou a ocasião em que o Facebook trabalhou em estreita colaboração com o Departamento Federal de Tecnologia de Informação (BSI) da Alemanha, durante as eleições parlamentares no país em 2017, quando a empresa excluiu milhares de contas falsas que estavam propagando informações falsas antes da votação.
Matthias von Hein (ek)/Caminho Político

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