SENADO FEDERAL CONTRA A COVID-19

SENADO FEDERAL CONTRA A COVID-19
Acompanhe os números de evolução da doença pelo painel do Ministério da Saúde

Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso

Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso
Av. André Maggi nº 6, Centro Político Administrativo

DE OLHO NOS RURALISTAS!

DE OLHO NOS RURALISTAS!
Observatório de agronegócio e políticas ruralistas no Brasil. As notícias com perspectiva social e ambiental.

TRANSPARÊNCIA CORONAVÍRUS

TRANSPARÊNCIA CORONAVÍRUS
Praça Alencastro, nº 158 - Centro

terça-feira, 28 de abril de 2020

Por um iluminismo digital"

Estamos cruzando as portas de um novo tipo de civilização: a digital. É a esse epocal divisor de águas que está dedicado o livro de Gustavo Ghidini, Daniele Manca e Alessandro Massolo, intitulado “La nuova civiltà digitale” [A nova civilização digital].Quem alimenta a mudança, acima de tudo, são as novas tecnologias. A internet e a telefonia smart estão levando à conectividade de tudo, incluindo das “coisas”. O big data disponibiliza vastos conjuntos de informações que podem ser analisadas por meio de algoritmos sofisticados. A inteligência artificial permite que robôs e máquinas aprendam a executar muitas funções quase de forma autônoma. Pode-se produzir remotamente graças à manufatura “aditiva” e à impressão 3D. As blockchains armazenam dados em registros digitais cuja integridade é garantida pelo uso de complexas criptografias.
A lista poderia continuar. Os autores do livro, portanto, têm razão em intitulá-lo de “A nova civilização digital”: não é preciso ser marxista para entender que os novos modos de produção estão tendo repercussões em cascata nas esferas da sociedade, da política e da cultura.
Diante dessas mudanças, confrontam-se duas narrativas. Uma catastrófica: será o fim do trabalho humano, o advento do Big Brother. A outra é triunfalista: nos livraremos da famosa condenação bíblica, as máquinas farão o esforço no nosso lugar.
A mensagem do livro é mais sóbria e pacata: precisamos pensar nas luzes e nas sombras daquilo que está acontecendo, “separar o joio do trigo”. Não pode haver dúvidas de que a civilização digital tem efeitos positivos em termos de prosperidade material, de oportunidades de escolha, de acesso ao conhecimento. Mas é preciso ter bem claros os efeitos negativos também. Se aprendermos a conhecê-los, talvez possamos neutralizá-los.
Tomemos o mundo do trabalho. Em vez de usar as máquinas, os humanos se limitarão a monitorá-las, definindo o que deve ser feito e como, e, depois, usando os robôs para obter exatamente o resultado desejado.
Criatividade, imaginação, inteligência emocional serão os fatores determinantes. Desaparecerão progressivamente as tarefas repetitivas e pouco gratificantes.Porém, também há o risco de novas formas de monitoramento e de controle invasivo sobre o desempenho laboral. Nascerão novos setores produtivos e, portanto, postos de trabalho de “qualidade” adicionais (especialistas em big data, gestores de mídia social, engenheiros especializados em computação cognitiva, arquitetos para a chamada “internet das coisas”, desenvolvedores de blockchain e assim por diante).
Mas já está nascendo um novo subproletariado digital, especialmente em torno da gig economy, o trabalho através de plataformas digitais. E estão sendo criadas novas desigualdades.
A pandemia da Covid-19 mostrou claramente os efeitos socialmente perturbadores e injustos causados pelas diversas oportunidades de acesso ao trabalho, ao consumo, à educação digitais.
Do ponto de vista social, aumentam as possibilidades de comunicação, interação, trocas em escala global. E já basta um clique para ter acesso a todos os tipos de informações e de textos: a biblioteca de Babel imaginada por Borges já é uma realidade. Os eleitores podem ter uma ideia em tempo real do que os políticos estão fazendo, em todos os níveis do governo.
Mas existe o outro lado da moeda. A inundação de fake news, em primeiro lugar. Mas também a dificuldade de se orientar em meio a tantas notícias plausíveis e bem fundamentadas, mas que dizem coisas diferentes (sobre a Covid-19, os cientistas estão divididos, ninguém sabe a quem dar crédito).
O mundo das mídias sociais permite que qualquer pessoa diga qualquer coisa, mas muitos abusam dessa oportunidade. As “câmaras de eco” das comunidades online são o caldo de cultura dos discursos de ódio (racial, étnico, religioso e assim por diante).
Muitos usuários acabam exibindo de forma exaltada o seu ego individual, “arriscando transformar a sociedade em um conjunto de mônadas”, como os autores observam corretamente. A política pode abrir espaço para as práticas manipuladoras da pós-verdade e explorar o big data para instituir sutilmente um “estado de vigilância”: um risco que não deve ser subestimado no rastro das técnicas de rastreamento que estão sendo testadas devido à Covid-19.
Uma parte muito interessante do livro é a discussão sobre as possíveis contramedidas. Na esfera do trabalho, a via mestra é a formação (que deve continuar ao longo de toda a vida).
Mas a abordagem deve ser pragmática, baseada em um diálogo estreito com o mundo empresarial. E como são necessários recursos, é preciso avaliar como “tributar” a digitalização. Para o uso dos robôs no lugar dos humanos, por exemplo. Ou redesenhando a taxação dos gigantes da rede e da sua predação cotidiana dos dados pessoais dos usuários, com fins lucrativos.
Muito pode e deve ser feito através da regulamentação e da luta contra os oligopólios. Na esfera da informação e da cultura, os autores sugerem injetar robustos “anticorpos iluministas” na escola (entre os professores, em primeiro lugar) e em todos os canais que formam os profissionais da informação. Sem esse filtro básico, as sanções ou os controles não servem, até mesmo o fact checking se torna irrelevante, se choca com os preconceitos e barreiras cognitivas difíceis de serem superadas.
A metáfora dos anticorpos iluministas é bela e adequada. Contanto que fique claro que o que é necessário não é a ânsia enciclopédica, mas sim o exercício crítico e cético da razão. Aprenda a pensar bem e a fazer funcionar corretamente o conceito de verdade, ou seja, a função mental que ativamos para verificar, precisamente, o vínculo entre o que se diz e se escuta e “as coisas como são”.
O livro também fornece ideias interessantes sobre como a civilização digital está mudando o “mundo da vida”, aquele dentro do qual levamos a nossa existência concreta junto com os outros.Aqui, o nó central é a relação entre a experiência offline e online. O filósofo Luciano Floridi cunhou um novo termo a esse respeito: o “onlife”, uma esfera com fronteiras cada vez mais sutis entre o real e o virtual, entre ser humano, máquina e ambiente, entre ser e interagir.
O advento da civilização digital implicará uma profunda revisão dos quadros cognitivos que desenvolvemos durante a modernidade para nos orientar no mundo e lhe dar sentido. É o desafio da hiperconectividade, do possível salto, nas palavras de Yuval Noah Harari, do Homo sapiens ao Homo deus.
Debates e cenários fascinantes, mas que devem ser tratados com muito cuidado. Para usar o lema de Ghidini, Manca e Massolo, devemos sempre prestar atenção para separar o joio do trigo. E para temperar, com o pensamento crítico, tanto os desvios catastrofistas quanto os triunfalistas.
O comentário é do filósofo italiano Maurizio Ferrera, professor da Universidade de Milão, em artigo publicado em Corriere della Sera e Caminho Político. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Edição: Régis Oliveira. Foto:Ilustração

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ame,cuide e respeite os idosos