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sábado, 4 de julho de 2020

"Com Jean Castex, França ganha mais um premiê conservador"

Jean CastexA mudança era esperada. Após mau desempenho de seu partido em pleito municipal, Macron precisa se reinventar até as próximas eleições, mas, para observadores, o novo premiê é mais déjà-vu do que renovação. Às 10 horas da manhã desta sexta-feira (03/07), caixas de mudança chegaram ao Hôtel Matignon, a residência oficial dos primeiros-ministros. Paris pôde ver conservador Édouard Philippe sendo dispensado.
O presidente Emmanuel Macron se despediu dele com palavras calorosas – e duas horas mais tarde veio o nome do substituto, o também conservador Jean Castex. Um alto funcionário, até o momento sem grande perfil público, assumirá o posto de chefe de governo.
Uma olhada na lista dos premiês franceses desde o início da Quinta República, em 1958, mostra que alguns não ficaram mais de um ano no cargo. Se algo dá errado, eles são afastados sem a menor cerimônia. Três anos foram um bom tempo para Philippe se segurar no cargo. Ele também fez seu trabalho excepcionalmente bem, aliviou a carga de Macron, e consta que ambos se entendiam bem. O governo resistiu politicamente tanto às batalhas de rua com os "coletes amarelos", quanto às intermináveis greves contra a reforma da Previdência.
Na França, o primeiro-ministro não é tanto um político autônomo, mas quem executa a política do presidente em exercício. Nesse ponto, é possível que tenha contado negativamente para Philippe o fato de ele acabar se tornando mais popular do que o próprio presidente. No fim da crise do coronavírus, o ex-premiê contava com 58% de popularidade, 20 pontos porcentuais à frente de Macron.
No entanto, há semanas já se especulava que no verão Macron efetuaria um recomeço político. Para tal, é comum que se deponha todo o governo, com o objetivo de, por meio de novas caras, convencer a opinião pública de uma mudança de direção.
O resultado das eleições municipais do último fim de semana deve ter reforçado ainda mais essa intenção do presidente, pois seu partido, o República em Marcha (LREM), sofreu uma dura derrota. O LREM, do qual Philippe também é membro, continua se apresentando como legenda presidencial e não conseguiu se firmar em governos municipais. Em vez disso, uma onda verde atravessou o país, com o partido Europa Ecologia - Os Verdes (EELV) conquistando as prefeituras de cidades importantes.
Tal cenário só fez aumentar a perplexidade em relação à figura do novo premiê. Jean Castex só ficou conhecido pela opinião pública por ter coordenado, nas últimas semanas, pela reabertura do país após a paralisação ditada pela covid-19. Ele foi chamado pela imprensa de "senhor desconfinamento".
Fora isso, o político de 55 anos – natural da região de Gers, no sudoeste da França – é um funcionário de segunda linha. Entre outras funções, foi secretário-geral adjunto do presidente conservador Nicolas Sarkozy entre 2011 e 2012, e, desde 2008, era prefeito da pequena Prades.
Com Castex, mais uma vez um representante da direita substitui um primeiro-ministro conservador que trabalhava com êxito. O perfil de Castex não inclui nem política social, nem ambiental. Observadores políticos de Paris reagiram com relativo desapontamento, e muitos tuitaram: "Mais do mesmo – a sensação de déjá-vu."
Castex frequentou escolas de elite parisienses, pertencendo, assim, à classe política tradicional da França. Certo está que ele não é a favor de uma ruptura com o trabalho governamental dos últimos três anos.
Com a escolha de Castex, Macron passou por cima da ministra da Defesa Florence Parly, a qual, enquanto mulher e socialista, teria sido um sinal de mudança política. E também deixou de lado seu ministro do Exterior, o socialista e altamente experiente Jean-Yves Drian, que conhece o aparato governamental como ninguém, e que também teria representado um guinada para a esquerda.
Em vez disso, o chefe de Estado escolheu um insider político, que, sem perfil próprio, terá acima de tudo a tarefa de implementar as intenções de Macron com o mínimo ruído possível, sem roubar dele as luzes da ribalta.
Há muito a fazer, pois será difícil a recuperação econômica da França após o colapso devido à pandemia. E o presidente perdeu terreno em todas as frentes: taxa de desemprego em declínio, mais investimentos e crescimento econômico – tudo se foi. Macron precisa recomeçar do ponto de partida, e para tal dispõe de menos de dois anos, até as eleições nos primeiros meses de 2022.
A prioridade é, se possível, conduzir o país sem danos adicionais para fora da atual fase aguda da crise do coronavírus. Entre os grandes projetos inacabados, consta ainda a reforma da Previdência, suspensa devido à eclosão da pandemia. Ela deverá acontecer, apesar de tudo, mas em forma abrandada: a partir de agora, Macron não pode mais se permitir contrariar o eleitorado.
Ao mesmo tempo, ele se vê diante de uma dívida estatal em franca expansão e das altas exigências dos franceses quanto aos gastos sociais. E por fim, precisa compensar a vitória dos verdes nas eleições municipais. A transformação da França em país ecologicamente sustentável, mais transportes públicos de curta distância, mais guinada energética: tudo isso custará muito dinheiro.
Seja como for, com a posse de Castex, Macron indica que o novo chefe de governo antes de tudo tem uma função: fazer seu trabalho em silêncio.
Barbara Wesel (av)Caminho Político
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