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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

HISTÓRIA: Os 150 anos da proclamação do Império Alemão

Em 18 de janeiro de 1871, na esteira da Guerra Franco-Prussiana, o chanceler Otto von Bismarck, o rei prussiano Guilherme 1º e delegações de príncipes alemães oficializavam o antigo objetivo de unificar a Alemanha. Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes, em Paris, 18 de janeiro de 1871. A luz de 32 lustres de prata se multiplicava pelo reflexo das paredes ao longo do salão de 73 metros. Flores, laranjeiras e móveis barrocos luxuosos compunham o cenário ao redor de centenas de pessoas em trajes de gala e uniformes militares. Lá estavam o rei prussiano e sua corte, muitos príncipes alemães e numerosos militares de alto escalão exibindo suas medalhas.
O coral encerrou a cerimônia religiosa encomendada pelos soberanos alemães no palácio real do inimigo já praticamente derrotado. Mas não era a missa que eles celebravam. Eles vieram para concretizar um velho sonho alemão: o sonho do Império Alemão, o sonho de ter novamente um imperador. Aos 71 anos, Guilherme 1º, rei da Prússia, era proclamado imperador alemão pelos príncipes presentes. O pintor Anton von Werner foi testemunha ocular do evento e o documentou a cena numa pintura produzida em 1885.
Na cerimônia cheia de ostentação, o escolhido não se sentia muito confortável. Na véspera, havia escrito: "Assumo um império apenas nas aparências. Não serei mais do que um 'presidente'. Mas se já chegamos até aqui, tenho de carregar esta cruz. Amanhã me despedirei da velha Prússia, à qual sempre estive ligado e sempre estarei. Nem consigo expressar como me sinto desesperado."
O papel de Bismarck
Uma pessoa, ao menos, estava mais do que satisfeita. Afinal o restabelecimento do Império era basicamente obra sua, cujos frutos ele finalmente podia colher após longos anos de trabalho: Otto von Bismarck, primeiro-ministro prussiano e primeiro chanceler (chefe de governo) do Império recém-fundado.Demorou longos anos até que a colcha de retalhos Alemanha, com seus pequenos principados e reinos, formasse um Estado nacional único, sob liderança da Prússia, o estado alemão mais poderoso. O reino de Guilherme 1º e Bismarck travou três guerras para atingir seu objetivo: em 1864, contra a Dinamarca, em 1866, contra a Áustria, e em 1870/71, contra a França.
Através da guerra contra a França, Bismarck conseguiu despertar o entusiasmado espírito nacional que lhe permitiu conquistar a adesão dos principados que ainda resistiam à unificação nacional. No fim de 1870, chegara a hora. Confederação da Alemanha do Norte rebatizou-se como Império e, em vez de uma presidência, passaria a ter um imperador. Apenas o rei Ludwig da Baviera hesitava ainda em declarar sua adesão.
Data histórica para a Prússia
Na última noite de 1870, o príncipe herdeiro da Prússia e futuro imperador Frederico 3º anotou em seu diário: "O imperador declarou não desejar fazer qualquer manifestação amanhã, porque a Baviera ainda não aderiu. Por outro lado, Delbrück comunicou que, hoje à noite, já estará impressa em Berlim a nova Constituição Imperial, que entrará em vigor amanhã, proclamando o imperador e o Império. Bismarck, que eu encontrei na cama e cujo quarto mais parece um verdadeiro depósito de tralha, desaconselhou uma proclamação sem a adesão da Baviera. Então, o remeti à histórica data de 18 de janeiro, com o que ele pareceu concordar."
De fato, não teria havido dia melhor para encenar o novo capítulo da história nacional, pois o 18 de janeiro era um dia santo para os prussianos. Neste dia, 170 anos antes, em 1701, o príncipe eleitor de Brandemburgo fora coroado como o primeiro rei da Prússia. Desde então, a data era lembrada todos os anos.
E a encenação foi bem-sucedida. Embora o Império já existisse formal e juridicamente há algumas semanas, a proclamação festiva de Guilherme 1º em Paris como imperador (kaiser, em alemão) entrou para os livros de história como a data de fundação do Império Alemão, ou Segundo Reich.
A cidade prussiana de Berlim foi escolhida como capital do Império Alemão e Bismarck se tornou o chanceler da nova nação. Estava aberta uma nova era de progresso para o território. Bismarck, que passou a ser conhecido como "chanceler de ferro", foi celebrado em milhares de monumentos espalhados pela Alemanha e o país começou a assumir uma postura mais influente em questões globais.
A data seria celebrada todos os anos até a primeira metade da década de 1930, quando o costume foi abandonado pelo regime nazista. As duas Alemanhas que surgiram após a derrota na Segunda Guerra Mundial também não abraçaram a data. A Alemanha Oriental aboliu celebrações no seu calendário. Já a Alemanha Ocidental só assinalou o episódio em 1871, por ocasião dos 100 anos.
Sementes da destruição
No entanto, em retrospecto, a forma como ocorreu a fundação também semeou algumas das bases para a destruição do novo império em 1918, no fim da Primeira Guerra Mundial. A proclamação em Versalhes foi encarada com ultraje pelos franceses. Animosidade que só aumentou após o Império anexar na guerra de 1870/71 uma fatia do território francês: a Alsácia-Lorena. Os episódios alimentaram a tensão entre os dois países que chegaria ao ápice em 1914.
A falta de um desenho mais democrático para o governo do novo império também concentrou poderes em demasia na figura do imperador e do chanceler. Enquanto o império era administrado por figuras hábeis diplomaticamente como Bismarck, isso não se revelou um grande problema. Mas a ascensão de chanceleres mais agressivos e do errático imperador Guilherme 2º a partir no final da década de 1880 acabou inaugurando uma era chamada de "novo curso", em que a Alemanha começou a antagonizar com países como o Reino Unido e a Rússia, numa trajetória que contribuiu para a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Em novembro de 1918, a monarquia foi abolida após revoltas populares na esteira da derrota nos campos de batalha.
Em junho de 1919, os alemães viram novamente seu destino ser decidido na Galera dos Espelhos, com a assinatura do Tratado de Versalhes. Imposto pelos aliados, o tratado formalizou a derrota alemã e estabeleceu duras reparações a serem pagas pelo país.
JPS/dw/cp
@CaminhoPolitico

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