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quinta-feira, 29 de abril de 2021

Os brasileiros que a escola não alcança

Milhões de jovens no Brasil abandonam a escola por "falta de interesse". Acho a definição rasa e perigosa, é preciso olhar as histórias de vida por trás da estatística, escreve o fundador do projeto social Salvaguarda. "Nunca vi a escola como um negócio que futuramente me daria retorno. Eu ia para a escola quando mais novo, pois era obrigado." Essa é a visão que um ex-estudante da rede pública tinha da escola. Ele agora faz parte da estatística de alunos que não concluíram a educação básica. Dados da PNAD Educação 2019 apontaram que 20% das 50 milhões de pessoas de 14 a 29 anos no país não completaram alguma das etapas da educação básica.
O segundo maior motivo para a evasão escolar foi a "falta de interesse" e correspondeu a 29% do total de alunos que abandonaram a escola – o primeiro motivo é a necessidade de trabalhar (39%). Ao fazermos do diploma do ensino médio um pré-requisito para quase todos os empregos formais atualmente, criamos uma dificuldade de inserção no mercado de trabalho para aqueles que não o possuem. Nesse cenário, esses jovens acabam aceitando qualquer emprego para sobreviver, mesmo aqueles em que podem ser explorados ou não ter acesso a direitos trabalhistas básicos.
Por essa razão, acho o termo "falta de interesse" raso e perigoso, pois ao definirmos 2,9 milhões de jovens assim, estamos, consequentemente, assumindo que eles simplesmente escolheram ter uma vida adulta de dificuldade financeira, falta de oportunidades e sujeita a exploração no mercado de trabalho. Além disso, perdemos a oportunidade de os ouvir para entender o que faltou na escola para eles, se viam sentido nela.
Histórico de reprovação
Para entender um pouco as histórias de vida por trás da "falta de interesse", tive a oportunidade de conversar com quatro estudantes que abandonaram a escola e se enquadram no perfil. Um deles é do Amapá; uma é da Bahia; um, do Rio Grande do Sul; e o outro, de São Paulo.
Por coincidência, todos tinham histórico de reprovação antes de optarem por parar de frequentar a escola. "Na última vez que reprovei, caiu a minha ficha. No primeiro dia de aula quando voltei, pensei que tinha ido para o terceiro ano e não tinha ido. Naquele dia eu chorei tanto, meu Deus do céu", diz o aluno do Sul. Segundo os estudantes, se não tivessem repetido outras vezes, não teriam desistido.
Como os pais lidaram com as reprovações e a desistência? De acordo com os estudantes, de forma um tanto quanto indiferente. Segundo a aluna da Bahia: "Quando eu contei, eles já esperavam. Sabe a cara deles de 'tanto faz para mim, já esperava isso de você'. Aí meu pai disse que não valeria a pena tentar mais, pois iria reprovar novamente. Ali, para mim, meu mundo caiu. Coloquei na cabeça e nem tento mais. Sei que vou fracassar de novo. Foi ali que pensei, realmente devo parar, mas sinto muito falta".
Distante do "mundo real"
O maior motivo das reprovações foram as faltas. Eles simplesmente não tinham vontade de ir para a escola. Não viam sentido nem relação entre a instituição e o "mundo real" que conheciam. Principalmente, não enxergavam a escola como um instrumento de acesso a um futuro com mais oportunidades.
"Eu já tinha um pensamento de que estudo, lá na frente, não faria falta pra mim", diz o aluno de São Paulo. Já o do Amapá disse que "vivia bagunçando, queria ficar jogando bola. Fui expulso de uma escola, até hoje não me querem lá. Fui com alguns amigos. Ai me lasquei, né?"
Talvez a grande dificuldade seja fazer com que esses jovens vejam sentido na escola. Certamente não será tentando os convencer, a qualquer custo, de que é importante ler livros, ter acesso à literatura clássica e aprender matemática. Falta um sentido mais prático. Penso que, primeiro, precisamos buscar formas de tornar o mais visual, óbvio e explícito possível a relação entre escolaridade e mercado de trabalho. Dessa forma, pelo menos, iremos conseguir trazer para a conversa esses alunos "desinteressados". Eles poderão se apropriar mais da escola sabendo que ela terá uma relação direta com os seus sonhos e planos futuros. Pois todos eles têm sonhos, mas não associam a escola como instrumento para os alcançar.
Com eles na conversa e como parte ativa na construção de como a escola deveria ser, poderemos os ouvir e, principalmente, aprender com eles. Quais são as demandas que eles têm, mas que a escola não cobre? Como gostariam que fosse? O que falta para verem sentido nela? Dessa forma, teríamos na construção da educação brasileira também as vozes desses milhões de alunos que atualmente, infelizmente, não se interessam por ela.
Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1

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