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terça-feira, 27 de julho de 2021

Virada climática: De Paris a Glasgow














Em 14 de julho, a Comissão Europeia apresentou o plano Fit for 55, que contém as medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 55% (em relação a 1990) em 2030 e alcançar emissões zero em 2050. O pacote de propostas chega depois dos eventos extremos que atingiram várias partes do mundo: dos 50° C alcançados perto de Vancouver (Canadá) às terríveis enchentes na Alemanha, Holanda e Bélgica. A mudança climática está entre nós e teremos que conviver com ela por muitos anos. Todos os países estão se empenhando arduamente para mitigar os seus efeitos e a Europa ocupa, pelo menos para os objetivos que se propôs, a liderança mundial.
O Acordo Verde e os Planos Nacionais de Recuperação e Resiliência (PNRR) são os recursos disponíveis para realizar a revolução verde, mas antecipo que todo esse trabalho não é suficiente para atingir os objetivos do Acordo de Paris.
As propostas da Comissão são autênticos desafios e, se conseguirmos concretizar o que está escrito no plano, dentro de 15-20 anos a nossa vida será completamente diferente daquela de hoje. A título de exemplo, aqui estão algumas propostas: fim da venda de automóveis a gasolina e diesel a partir de 2035 e introdução do imposto sobre as emissões, bem como um aumento substancial da produção de energia solar e eólica e um fundo social para sustentar os custos da transição para pessoas com dificuldades econômicas.
Será interessante entender como os Estados-Membros irão receber as indicações e, sobretudo, quais serão as sanções. As posições imediatas dos países do Leste Europeu, mas também da França e da Itália, mostram que o percurso não será de forma alguma simples. Por outro lado, os partidos e as associações ambientalistas ressaltam como as ações não são suficientes para respeitar os objetivos do Acordo de Paris.
Como é fácil imaginar, as atividades ligadas aos combustíveis fósseis, como empresas automobilísticas e companhias aéreas, estão forçando para afrouxar as medidas, pressionando governos e parlamentos. É desejável que essa lógica de curto e a curto prazo não encontre defensores, como já aconteceu no passado, mas é mais do que provável que acabarão tendo alguns resultados para diluir as intervenções ao longo do tempo.
Recentemente encontramos, nos jornais, as três declarações seguintes: a transição ecológica será um banho de sangue; com carros elétricos, Ferrari, Lamborghini e Maserati fecharão; para produzir energia sem emissões de gases de efeito estufa, serão necessárias mini usinas nucleares e, de qualquer forma, somente a fusão nuclear nos salvará. Quem disse isso? O administrador delegado da ENI ou outra empresa de petróleo? O ministro do petróleo saudita? Não, foi o ministro italiano Cingolani, que lidera o recém-criado ministério da transição ecológica!
Parece uma piada, mas é a triste realidade, denunciada, agora diariamente, por ambientalistas e não só. A transição ecológica tem questões críticas e grandes oportunidades, o ministro deve valorizar as segundas, as primeiras já são defendidas pelos gestores da economia fóssil!
Compromisso de baixo
Se as ações implementadas pelos Estados não bastassem, o que fazer? Se quisermos a transição, precisamos nos comprometer a partir de baixo e fazer isso rapidamente. Segundo alguns estudiosos, aliás, o tempo para implementar ações para o clima já passou, os mais otimistas falam de alguns anos, menos de dez, para salvar o que se pode salvar: é claro que postergar mais significa perder as últimas possibilidades de salvaguardar o nosso Planeta.
Para ativar os cidadãos e as comunidades locais, é necessária uma virada cultural porque os recursos, que existem, devem ser endereçados para projetos coerentes com os objetivos europeus de 2030 e 2050. Em última análise, cada cidadão deve sentir-se responsável pelo futuro do seu próprio território e de todo o planeta.
O que precisa ser feito na prática? Todos devemos divulgar as grandes oportunidades econômicas dos investimentos verdes. Cada um de nós pode ganhar graças ao meio ambiente, porque é muito conveniente! Um dado: só em 2020, as contas correntes italianas aumentaram em 175 bilhões de euros, devido às poupanças de famílias e empresas. É dinheiro ainda não aplicado, está aí esperando, mas de quê?
Hoje a atividade mais remunerativa e mais necessária é a produção de energia renovável, com sol e vento. Em especial, o sol está à disposição de todos e nos permite revolucionar o sistema energético que conhecemos até hoje.
A rede elétrica atual prevê poucas usinas que produzem energia para muitos pequenos consumidores: os poucos produtores (producer) dominam o mercado, enquanto os pequenos consumidores (consumer) dependem totalmente deles.
Mesmo em um mundo sem combustíveis fósseis é possível replicar o mesmo modelo, com poucas grandes usinas solares e eólicas, que abasteçam os diversos consumidores.
Existe uma segunda via, muito mais democrática, possível apenas graças ao sol, em que muitas pequenas plantas produzem a maior parte da energia e as grandes plantas desempenham o papel marginal de complementar as necessidades.
No novo cenário, os consumidores são transformados em prosumer (producer-consumer), que consomem a energia que eles mesmos produzem ou em associação com outras (comunidades energéticas), enquanto a rede funciona como acumulador, recuperando assim a energia em excesso durante o dia e retornando-a à noite ou de manhã, conforme as exigências.
A nossa casa passa a ser uma central elétrica, com a rede que distribui a energia de acordo com as necessidades, limitando-se a modestas integrações em determinados períodos do dia ou do ano. Para a Itália, cuja morfologia territorial é bastante complexa, a “democracia energética” dos prosumer é a solução ideal. De fato, a produção distribuída reduz as perdas causadas pelo transporte e torna o sistema mais robusto e estável.
Infelizmente, o PNRR italiano incentiva o sistema atual muito mais do que o segundo, mas nem tudo está perdido. Os estudos apresentados pelo prof. Setti da Universidade de Bolonha defendem que, para alcançar a democracia energética, basta que cada italiano instale 1 KW (quilowatt) de potência fotovoltaica, chegando a 60 GW (gigawatts) no total.
Hoje a Itália tem 21 GW de energia fotovoltaica, enquanto a Alemanha 53. Para atingir a meta, é necessário um empenho extraordinário porque faltam 40 GW! Nos últimos anos, a Itália conseguiu montar menos de 1 GW por ano, enquanto na Alemanha chegam a 4… Posto assim, parece impossível alcançar 60 GW nos próximos anos, mas - cuidado! - em 2011, sempre na Itália, houve 9 GW de novas instalações em apenas um ano!
Também do ponto de vista econômico, os recursos necessários já existem: 40 GW custam 60 bilhões de euros; portanto, se famílias e empresas investissem um terço de suas economias nas contas correntes apenas de 2020, a situação já seria resolvida.
Para uma família, metade das despesas são restituídas pelo estado em 10 anos e, portanto, após 6/8 anos, todo o investimento já seria pago e os próximos vinte e mais anos de vida da instalação só darão lucros.
Quem ainda não instalou a energia fotovoltaica em casa deve se mexer imediatamente, porque com poucos milhares de euros pode realmente ajudar a salvar o mundo!
Como usar o hidrogênio?
Vou concluir sobre o hidrogênio, tema do qual se fala para tornar ecossustentáveis atividades industriais altamente poluentes, como a siderúrgica. Além das formas e dos diferentes métodos de produção, a única maneira de se obter hidrogênio verde, portanto sem a emissão de dióxido de carbono, é produzir energia elétrica a partir de fontes renováveis em quantidades superiores ao necessário.
O excedente pode ser convertido em hidrogênio, que, por meio de células a combustível, gera corrente elétrica para acionar motores e sistemas elétricos.
Até que a necessidade de eletricidade for totalmente suprida por fontes renováveis, o tema do hidrogênio permanece ligado à pesquisa, mas não pode ter aplicações industriais, a não ser com a emissão de dióxido de carbono. Por essa razão, após a verificação em nível europeu, o projeto do hidrogênio azul, obtido a partir do gás e com o CO2 capturado e colocado nas antigas jazidas de gás da costa de Ravenna, foi retirado do PNRR. De fato, a técnica em questão é apenas a forma desajeitada da ENI para manter o gás em uma economia sem combustíveis fósseis. Infelizmente, o governo e o ministro Cingolani caíram na armadilha, mas, felizmente, a Europa a considerou incompatível com a transição ecológica.
Portanto, segue-se a todo vapor na produção de energia solar e eólica, para atingir a cobertura total das necessidades de eletricidade até 2030; daí até 2050, o hidrogênio poderá também dar uma importante contribuição para a descarbonização completa de todas as nossas atividades.
A reportagem é de Andrea Tolomelli, publicada por Settimana News e Caminho Político. A tradução é de Luisa Rabolini. Edição: Régis Oliveira. @caminhopolitico @cpweb

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