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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Aplicativo leva tecnologia de restauração ambiental para camponeses e quilombolas no Cerrado

Desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB), o Radis Cerrado faz uso de ferramentas web para auxiliar na adesão e acompanhamento de processos de restauração do bioma; camponeses do MST ajudaram a desenvolver a ferramenta. Com cerca de 51% de sua cobertura original devastada pelo avanço do agronegócio, o Cerrado possui um enorme passivo de restauração ambiental. Segundo critérios estabelecidos pelo Código Florestal de 2012, mais de 4 milhões de hectares no bioma estariam aptos para projetos de recomposição florística — uma área do tamanho da Suíça. Com o propósito de facilitar o processo de adesão dessas áreas degradadas ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), o Centro de Gestão e Inovação da Agricultura Familiar da Universidade de Brasília (Cegafi/UnB), em parceria com a Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), desenvolveu o aplicativo Radis Cerrado, já disponível para o sistema operacional Android.
O app faz parte da iniciativa Restaura Cerrado e integra diferentes funcionalidades para monitoramento dos processos de recomposição da vegetação no bioma, permitindo que agricultores, quilombolas, assentados da reforma agrária e técnicos ambientais façam registros de uso do solo e informações socioprodutivas ao longo do tempo, permitindo melhor planejamento e organização da oferta de produtos.
“No nosso caso, temos todos os dados à mão, inclusive nossa localização e registros oficiais”, explica Bruno Leandro Oliveira Maciel, do assentamento Roseli Nunes, em Planaltina. “É um instrumento importante de garantia do nosso trabalho na produção e na preservação”. Tendo participado dos testes desde o início, Bruno ressalta que os assentados têm baixado e utilizado a ferramenta, em constante aprendizagem. “É muito bem-vinda”.
Inicialmente o aplicativo atende às normas do Distrito Federal, mas sua utilização no Mato Grosso e outros estados com protocolos de recuperação ambiental semelhantes aos do DF já está em desenvolvimento. O objetivo é ampliar a base de usuários e tornar a ferramenta de domínio público, podendo ser utilizada pelos diferentes Órgãos Estaduais de Meio Ambiente. O projeto nasceu de uma agenda de trabalhos do Cegafi/UnB com o Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla em inglês) buscando avançar na restauração ambiental no país e especificamente no Cerrado, por sua importância como fonte de abastecimento de seis das oito bacias hidrográficas brasileiras. A parceria para desenvolvimento da ferramenta teve a participação de camponeses do Assentamento Roseli Nunes, em Americana (SP), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
“Fizemos testes preliminares com alguns agricultores para colher opiniões, além de um workshop com técnicos e especialistas em restauração”, conta Mário Ávila, coordenador do Cegafi/UnB. “O papel dos assentados para a utilização do Radis Cerrado tem sido fundamental para sua adequação e simplificação”.Os usuários podem lançar dados diretamente no aplicativo conforme a frequência de monitoramento previsto no PRA. O Radis Cerrado registra essas informações ao longo dos anos (durante até uma década) e permite a visualização dos dados, fotos e imagens de satélites na plataforma do usuário. A mesma base de informações será utilizada pela Secretaria de Meio Ambiente — no caso do Distrito Federal, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram).
Após baixar o aplicativo, o produtor ou técnico acessa pela própria ferramenta as informações do seu Cadastro Ambiental Rural (CAR) e preenche o formulário com a proposta ou modelo simplificado de projeto de restauração, que pode ser obtida pela plataforma de internet da Embrapa.
A partir da necessidade de recuperar uma APP (Áreas de Preservação Permanente) ou reserva legal, o agricultor ou técnico determina como e onde vai instalar as parcelas de restauração, como vai cercar ou isolar a área que quer restaurar, entre outros parâmetros, e passa a alimentar a ferramenta seguindo os protocolos para a observação da cobertura vegetal em restauração, incluindo tamanho, espécies, entre outros dados. Os registros devem ser repetidos periodicamente nos mesmo pontos e condições, alimentando um histórico que permite acompanhar a restauração da paisagem local.
Por ser de livre acesso e de linguagem acessível, os desenvolvedores esperam o uso do aplicativo em larga escala. “A carência de soluções para facilitar a regularização ambiental em assentamentos rurais, pequenas propriedades e territórios de povos e comunidades tradicionais é alta”, diz Iris Roitman, pesquisadora do Cegafi/UnB. “Nosso projeto é voltado para esse público-alvo e para profissionais que prestam assistência técnica a ele”.
BANCO DE DADOS FICARÁ DISPONÍVEL PARA PESQUISA
“O desenvolvimento do projeto demandou uma equipe interdisciplinar para agregar conhecimentos”, explica Tamiel Khan Baiocchi, pesquisador do Cegafi/UnB. Ele conta que participaram da equipe especialistas das áreas de ecologia, botânica, recuperação de áreas degradadas, sistemas de produção animal e vegetal, agroecologia e sistemas agroflorestais, políticas públicas e legislação ambiental, engenharia de sistemas, sistemas de informação, geoprocessamento, agronomia, zootecnia, engenharia florestal e gestão de informações. Além de profissionais das relações públicas e alunos de graduação (gestão do agronegócio e ciências naturais). Uma empresa de tecnologia foi contratada para contribuir com a construção da plataforma.
Os dados relativos à recuperação das áreas degradadas e respectivos planos de recuperação ambiental, bem como informações sobre produção vegetal, animal e agroextrativismo das unidades de produção são coletados e armazenados, alimentando um banco de dados que ficará disponível para consulta, auxiliando agricultores, gestores, pesquisadores e o público em geral que trabalha direta ou indiretamente com ambiente e desenvolvimento rural sustentável.
O lançamento da plataforma, realizado no último dia 26 de agosto, contou com a participação do coordenador de projetos do De Olho nos Ruralistas, Bruno Stankevicius Bassi, que mediou o debate com o presidente do Ibram, o ex-ministro do Meio Ambiente Sarney Filho (PV-MA), o presidente da Frente Parlamentar Ambientalista, deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP), o consultor da Embrapa Daniel Vieira e o advogado ambientalista André Lima.
Nanci Pittelkow/Caminho Político
Foto principal (Divulgação): Bruno Maciel, do assentamento Roseli Nunes, testa o Radis Cerrado
@caminhopolitico @cpweb

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