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domingo, 5 de setembro de 2021

PT investe em reaproximação com evangélicos. Conheça “os pastores de Lula”

Religiosos avaliam que há espaço para diálogo entre o partido e os fiéis, principalmente nas periferias que mais sofreram com a pandemia. Desde a vitória de Jair Bolsonaro (sem partido) sobre Fernando Haddad (PT-SP), em 2018, uma das avaliações recorrentes de dirigentes do PT foi que o resgate de pontes com o mundo evangélico seria crucial para qualquer projeto que o partido viesse a propor em eleições. Agora, após recuperar seus direitos políticos e em franca campanha para voltar à Presidência da República, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e figuras importantes do partido têm se dedicado a buscar pastores para tentar desfazer resistências e reverter a quase hegemonia de Bolsonaro dentro desse grupo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o segmento representava, em 2020, 22,2% da população brasileira.Sob a liderança da deputada Benedita da Silva (PT-RJ), o partido fundou um núcleo específico para tratar do assunto: o Evangélicos do PT (Nept). O trabalho tem sido feito no sentido de retomar o diálogo perdido com essa parcela, sobretudo na periferia das grandes cidades. O reencontro com evangélicos, de acordo com Gilberto Carvalho, ex-chefe de gabinete de Lula, é considerado “fundamental” para a estratégia de retomada da periferia.
“É um front que nós consideramos extremamente importante, e temos estimulado muito o nosso pessoal, sobretudo nos estados, a fazer um contato com as igrejas. Isso está sendo feito menos nas cúpulas e mais na base, direto com pastores ou com organizadores regionais dos grupos evangélicos. A gente tem consciência de que esse diálogo é fundamental, sobretudo para o trabalho nas periferias, onde a presença evangélica é muito forte”, destacou o ex-ministro em conversa com o Metrópoles. O núcleo tem uma direção nacional e já formou grupos espalhados pelo país todo para reunir militantes evangélicos e pastores simpáticos ao PT. Embora ainda não tenha caráter de campanha aberta, tem pavimentado a inserção de Lula nessa camada social.
“O PT dialoga com todas as religiões para ampliar cada vez mais sua representação junto ao nosso povo. Com os evangélicos, não poderia ser diferente. O Brasil evangélico tem crescido muito na área popular, e por isso nos coloca a missão de buscar cada vez mais o diálogo com as suas diversas denominações, sobretudo com a base”, diz a deputada Benedita da Silva.
“Nossa maior preocupação com esse diálogo é não instrumentalizar as religiões e defender o Estado laico, pois o mais importante é a participação dos que têm fé na luta comum pela justiça social e pela solidariedade com o oprimidos”, enfatizou.
Cortesias
O ex-presidente, por sua vez, em suas andanças pelas regiões Sudeste e Nordeste, usou parte da agenda para se encontrar com líderes evangélicos.
No Rio de Janeiro, Lula esteve com o bispo Manoel Ferreira, líder da Assembleia de Deus de Madureira, bolsonarista declarado desde as eleições de 2018. Antes, o bispo foi aliado do governo Lula e apoiador da reeleição de Dilma Rousseff, em 2014. O encontro foi combinado pelo presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), André Ceciliano (PT), e realizado em um sítio de sua propriedade.
Aliados de Bolsonaro encararam o episódio como “visita de cortesia” e lembraram que o pastor tem “gratidão” ao ex-presidente, devido a uma lei sancionada em 2003, que deu personalidade jurídica própria às igrejas.
Não se pode dizer que o bispo está com Lula ou que já represente hoje uma ponte com do PT com eleitores evangélicos. Tanto que, no último sábado (28/8), a igreja realizou o 1° Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos da Convenção Estadual das Assembleias de Deus Madureira (Conemad), em Goiânia, que contou com a presença de Bolsonaro. No entanto, na visão de alguns petistas, o encontro é um sinal de que há possibilidade de se abrir um canal de diálogo importante.
“Cura gay”
Na Bahia, foi a vez de Lula se encontrar com Pastor Sargento Isidório (Avante), deputado federal mais votado no estado em 2018, com 323 mil votos, e que já se encontra plenamente engajado na defesa da eleição do ex-presidente e na divulgação do apoio de Lula ao seu nome – usando sua inseparável Bíblia. O parlamentar divulgou em suas redes uma foto da mão de Lula postada sobre a edição.
Isidório é um deputado que, em plena sessão da Câmara, permanece rezando, ajoelhado, sempre empunhando a Bíblia. Isidório é defensor convicto da “cura gay” e se mostra como exemplo de que ela existe, se autoproclamando “ex-gay”. No Congresso, ele é autor de um projeto para criar o “Dia do Orgulho Hétero” e transformar a Bíblia em “Patrimônio Nacional, Cultural e Imaterial do Brasil e da Humanidade”.
Reação
Ao apostar na chance de avançar sobre um nicho bolsonarista, Lula viu logo a exposição ao lado do pastor sargento, que aponta a homossexualidade como “safadeza” estimulada pela “mídia”, render críticas severas nas redes sociais e de defensores de direitos humanos e representantes da comunidade LGBTQIA+, além de eleitores tradicionais do PT.
Em recente programa apresentado pela ex-BBB Thelma Assis, Lula tentou replicar críticas diretas feitas pela cantora Linn da Quebrada dizendo que faria o possível para o que o pastor não tivesse preconceito contra gays e vice-versa. No entanto, precisou enfrentar a contradição. “É que não se trata do nosso preconceito diante dele”, respondeu Linn. “Se tratam das ações que ele têm e que prejudicam nossa vida”, disse a cantora, durante o programa Triangulando, produzido pela Dia Estúdio.
Igrejas autônomas
O pastor Ariovaldo Ramos, coordenador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, é um apoiador do ex-presidente e chegou a visitá-lo na prisão em Curitiba. Ele avalia que, para entrar novamente na periferia das grandes cidades, necessariamente o PT terá que buscar os evangélicos. “Não há dúvida nenhuma desse interesse, inclusive já foi mostrado e dito pelo próprio Lula”, enfatiza.
“Se quer voltar a falar com a periferia, é preciso que o PT saiba que ela não está mais vazia, está ocupada. E está ocupada pelos evangélicos, majoritariamente”, aponta o pastor, que não descarta uma possível filiação ao PT.
“Se ele vier a ser candidato, a minha tendência é apoiá-lo, por entender que a proposta que ele mostra pode tirar o Brasil dessa situação econômica, social, política e internacional em que nós estamos”, diz o pastor.
Luciana Lima/Caminho Político
@caminhopolitico @cpweb

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