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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Irremediável divisão da Igreja e do Estado

"Há um poderoso pacto que
conecta a profunda divisão política com a profunda divisão religiosa. Em ambos os eventos, pode-se vislumbrar o rigor de um projeto ao qual nem o ex-presidente Trump nem os bispos e cardeais que tentam desativar o Papa querem renunciar", escreve o jornalista e ex-deputado italiano Furio Colombo, pelo Partido Democrático, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano e Caminho Político. A tradução é de Luisa Rabolini.
Segundo ele, "estamos vivendo um poderoso desvio (que tem seu ponto inicial e dramático no assalto ao Capitólio estadunidense, evento ainda hoje bastante obscuro) que parece ter o propósito de derrubar com formas de agressão e guerra o grande (e infelizmente frágil) projeto de paz da democracia inspirada nos Estados Unidos e do Papa Francisco. A palavra usada e amada pelos supremacistas da época de Reagan era 'Armagedom', a batalha final".
Eis o artigo.
Estávamos em caminho para um mundo melhor. Grandes depósitos de tecnologia, de sabedoria, de experiência nos aguardavam. Teríamos conhecido coisas radicalmente novas. Teríamos reorganizado nossos sentimentos para torná-los sentinelas sempre ativas contra o mal a ser feito e o mal a ser recebido.
Teríamos construído outro tipo de paz que não seria o intervalo entre duas guerras ou a proteção dos perigos por meio de fronteiras blindadas. Teríamos abolido os inimigos e acumulado bem-estar para redistribuir, porque não é ruim organizar a vida segundo projetos de felicidade que pela primeira vez nos pareciam possíveis.
Claro que era esperança e imaginação. É verdade que vivíamos num mundo medíocre e bastante inferior à visão que continuávamos a nos prometer e nos contar. Mas também é verdade que tínhamos todos os motivos para pensar que estávamos indo na direção certa. Mas algo totalmente inesperado aconteceu.
Dois raios atingem violenta e furiosamente, não faz muito tempo, dois céus aparentemente desconectados, causando uma perda de equilíbrio assustadora e ainda agora instável. Primeiro, houve a aparição repentina e desestabilizadora de Trump, uma personagem de liderança nunca exibida antes, pois dedicada à destruição entusiástica e implacável de tudo o que os EUA - e, por imitação, o mundo - conhece como democracia.
O mundo laico-político ligado, histórica e moralmente, aos Estados Unidos foi atravessado por uma convulsão que minou e continua a minar ideias e princípios, mas também provocando um enfraquecimento inexplicável da parte da política e da cultura que deveria reagir e rejeitar a tentação maléfica do suprematismo cego atraída pelo precipício.
Enquanto isso, num alhures que nunca teria sido possível conectar, no passado, um violento ataque foi desencadeado contra o Papa, como chefe da Igreja, como teólogo, como pregador, como professor, como analista social, como observador e participante da política, como juiz, como protagonista da história do tempo.
É razoável conectar o ataque violento, poderoso e imensamente vulgar ao Papa por personalidades fortes e destacamentos de sua Igreja com a violência incrivelmente semelhante que rompe o governo, o parlamento e a presidência nos EUA?
O papa Bergoglio não sofre da fraqueza física e psicológica de que parece sofrer o presidente Biden, que parece ao mesmo tempo ousado e imóvel.
Mas vamos olhar dentro das caixas das duas perigosas rachaduras. A diversidade é evidente. Uma é a luta pelo controle total de um imenso poder político e militar, para o que surgem as palavras "traição" e "golpe". A outra é o descrédito do Papa, visando a remoção por heresia ou por cisma. Um fato a ser observado é que cada uma das duas divisões separadas e diferentes oferece um empréstimo para a outra. Os inimigos do Papa são os defensores de uma rígida observância bíblica levada ao ponto de se associar ao criacionismo, primitivismo bíblico que ordena acreditar literalmente e sem interpretações culturais nas Escrituras. E rejeitam toda a pedagogia católica.
Os supremacismos trumpianos, portanto, tentam inviabilizar juridicamente o aborto e exaltam a família “tradicional” (mãe, pai e filho) como forma de bloquear legalmente qualquer outra forma de vínculo e relação sentimental.
Portanto, há um poderoso pacto que conecta a profunda divisão política com a profunda divisão religiosa. Em ambos os eventos pode-se vislumbrar o rigor de um projeto ao qual nem o ex-presidente Trump nem os bispos e cardeais que tentam desativar o Papa querem renunciar.
Não estamos atravessando um momento ou um episódio difícil na vida italiana. Estamos vivendo um poderoso desvio (que tem seu ponto inicial e dramático no assalto ao Capitólio estadunidense, evento ainda hoje bastante obscuro) que parece ter o propósito de derrubar com formas de agressão e guerra o grande (e infelizmente frágil) projeto de paz da democracia inspirada nos Estados Unidos e do Papa Francisco.
A palavra usada e amada pelos supremacistas da época de Reagan era "Armagedom", a batalha final.
Agora eles se sentem prontos.
Artigo publicado por Il Fatto Quotidiano e Caminho Político. A tradução é de Luisa Rabolini. Edição: Régis Oliveira. @caminhopolitico @cpweb

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