O fenômeno político contemporâneo em que parcelas das classes populares apoiam projetos que as prejudicam não pode ser compreendido por meio de explicações simplistas baseadas na ignorância ou na manipulação direta. Trata-se de um processo complexo, enraizado em estruturas simbólicas, emocionais e materiais que moldam a percepção da realidade. A filosofia, a sociologia e a psicologia política oferecem instrumentos para decifrar esse enigma, revelando que o voto “contra si mesmo” é, na verdade, um voto coerente dentro de um universo simbólico cuidadosamente construído.
Walter Lippmann, ao formular o conceito de pseudoambiente, mostrou que as pessoas não reagem ao mundo real, mas às representações mediadas que dele recebem. Essas representações, filtradas por estereótipos e narrativas, criam uma realidade paralela onde o explorador aparece como benfeitor e o oprimido como culpado de sua própria miséria.
Karel Kosík, ao desenvolver a noção de pseudoconcreticidade, aprofunda essa crítica ao demonstrar que a aparência social se impõe como se fosse a própria essência. O trabalhador, imerso nesse mundo fetichizado, não percebe as relações de dominação que o atravessam, pois elas se apresentam sob formas naturalizadas. A psicologia política e a neurociência acrescentam que as decisões humanas são mediadas por afetos: o medo, a raiva e o ressentimento tornam-se forças políticas decisivas.
As grandes plataformas digitais, ao explorar algoritmos que privilegiam o engajamento emocional, transformam essas paixões em capital político, reforçando bolhas cognitivas e identitárias.
A desigualdade estrutural, por sua vez, alimenta o desespero e o cinismo. Quando o horizonte de mudança se esvai, o autoritarismo surge como promessa de estabilidade. A nova direita compreendeu que o poder não depende mais da construção de consensos, mas da destruição deles.
Ao corroer a confiança nas instituições e na própria ideia de verdade, ela cria um terreno fértil para o fascismo emocional. Assim, o apoio popular a projetos regressivos não é um erro de cálculo, mas o resultado de uma engenharia simbólica e afetiva que transforma a dominação em identidade e a exploração em pertencimento.
Régis Oliveira/Caminho Político
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