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domingo, 30 de junho de 2019

“Desfile ritualístico”, por Heródoto Barbeiro

Resultado de imagem para Heródoto BarbeiroRitual é tudo. Sua origem está nas religiões que cultivam desde os tempos imemoriais. Muitos rituais sobreviveram até o presente. As pessoas se inebriam com os paramentos, chapéus, braçadeiras, cantos, a devoção de todos e o ambiente convidativo para a reflexão. Para muitos o ritual é mágico. Na pré-história, alguns grupos humanos submetiam pessoas à trepanação, ou seja, operação de abertura de cavidade no crânio. Mesmo naquelas épocas remotas isso era revestido de toda uma ritualística cerimonial. No ritual ocorre o milagre, acreditava-se que por aquela fenda um ser espiritual ingressava no corpo da vítima, ou melhor, do escolhido. Se sobrevivesse a essa cirurgia primitiva conquistava um lugar privilegiado, era considerado um ser especial, afinal ele esteve com os deuses e voltou. Inúmeros outros rituais vieram do passado, foram atualizados com a tecnologia atual e ganharam, graças às redes sociais, uma amplitude global. Uma bênção de um líder religioso não está mais disponível apenas para os membros da tribo ou do clã, mas para qualquer devoto em qualquer lugar do mudo. Mesmo com a censura.
O ritual religioso foi apossado pelos governantes e se tornou um instrumento de poder. O mestre Confúcio, que viveu há uns cinco séculos antes de Cristo, codificou o ritual e este passou a ser o guardião da estabilidade social e política da China. O passo a passo da ritualística está no O Livro dos Ritos, de sua autoria. Os rituais foram decisivos para que as estruturas nas civilizações extremo-asiáticas perdurassem tanto. Recentemente se viu essa ritualística por ocasião da abdicação do imperador do Japão e ascensão do seu filho ao trono. Muito mais rígida do que o mesmo fato na Inglaterra, com desfile de carruagem e tudo o mais que o novo rei, ou rainha tem direito. Os estudiosos chineses atribuíam as crises, a ruína econômica, as péssimas colheitas e a fome ao abandono do ritualismo. E forma de se recuperar a prosperidade era o ritual público onde se destacava o imperador, o intercessor entre o Céu e os mortais. Hoje são os líderes políticos que participam de rituais, ou desfiles, em carro aberto, como fizeram recentemente os líderes da China, Xi Jinping, e o da Coreia do Norte, Kim Jong Un. Um simples desfile com uma multidão amestrada em Pyongyang mostrou o milagre da aproximação de um povo infeliz com uma das nações mais poderosas da Terra.Os rituais ganharam espaço também nas democracias seja na Casa Branca, seja no Palácio do Planalto. As cerimônias simples, chinfrim da época do Getúlio Vargas, para assinatura de uma lei ou decreto tinham valor simbólico. Afinal criar a Petrobras foi um marco na história econômica e política do Brasil. Porém, pós-constituição de 1988, as cerimônias e rituais do governo se banalizaram. Qualquer bobagem, ou posse de um subalterno qualquer, faz-se uma cerimônia no Planalto. Uma plateia de interesseiros, muitos de boca aberta para os favores do Estado, aplaudem quando comandados. Um grupo de papagaios de pirata se comprime atrás do chefe ou do homenageado, com esperança de aparecer nos vídeos de todas as plataformas possíveis. Grupos de áulicos se atiram com as mãos estendidas para ser os primeiros a cumprimentar seja lá quem for. As tevês estatais capricham no melhor ângulo já combinados com as assessorias dos donos temporários do poder. Para os atos mais insignificantes se faz uma cerimônia no palácio. E o milagre da ritualística se dá: todos saem satisfeitos por terem se habilitado a dar uma mamada no úbere do Estado alimentado pelos que não tem acesso à cerimônia.
Heródoto Barbeiro é editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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