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quarta-feira, 17 de julho de 2019

"Um novo Renascimento"

O governo Bolsonaro não tem o menor respeito com os mais elementares parâmetros de civilidade e de dignidade humana. Estimula o desmatamento, incentiva a invasão de terras indígenas, autoriza os agrotóxicos, nega o direito de aposentadoria ao trabalhador, quer acabar com a educação pública, troca os livros pelas armas, precariza a saúde e agora anuncia a pretensão de liberar legalmente o trabalho infantil. Entre outras barbaridades. Embora esse desprezo pelo ser humano seja uma ameaça que avança mundialmente, pela debilidade da sociedade brasileira a experiência neofascista de Bolsonaro se torna muito mais cruel do que a de Trump nos Estados Unidos. Liberdade e justiça só para os donos do dinheiro. O povo não conta, pois todo sofrimento que amarga não passa de um carma. Estava escrito nas estrelas. O trabalhador não é tratado nem mais como mão de obra, sujeito portador de subjetividade, como era no capitalismo industrial, mas sim como mera peça de uma engrenagem, sujeita a reposição e troca perante um dano irreparável.
É um sistema de única direção. Os que não se adaptam e se submetem são atirados ao lixo dos imprestáveis e indesejáveis. Uma realidade social tão desumana, igual ou pior do que no feudalismo. Um retrocesso tão irracional que remete a antes do Renascimento. O homem deixa de ser o centro, a razão da vida em sociedade, para dar lugar ao mercado, um ente sagrado, com poderes celestiais para definir o futuro da humanidade, e aí se incluem a natureza, a economia, a política, o social, a cultura, enfim tudo que a rodeia. É o soberano, controlador da vida e da morte.
Realmente, a nova ordem de organização e reprodução do capital, também chamada de ultraliberalismo, ou neofascismo, é muito pior, mais violenta e predatória do que o neoliberalismo, que embora não abra mão do Estado mínimo e das privatizações, pelo menos não trata como inimigos, que precisam ser abatidos, as lideranças e atores das lutas identitárias e sociais. O que se vive, ou melhor, se amarga, com Trump, Bolsonaro e outros do mesmo naipe, mundo afora, é o obscurantismo em uma escala que beira a insanidade, a bestialidade.
A angústia dos brasileiros com Bolsonaro é parte do drama que vive hoje a humanidade, diante do recrudescimento de valores ultraconservadores na infraestrutura e extremamente reacionários na superestrutura, em nível internacional. Um modo de dominação e poder que, para maximizar a exploração e os lucros, não hesita em combinar práticas escravagistas com dogmas teocráticos de extrema direita. Uma espécie de absolutismo de mercado, amparado no falso moralismo, no fundamentalismo religioso e no Estado altamente repressor.
Diante de uma conjuntura internacional tão perversa, a resistência ao neofascismo necessita de uma frente ampla e unificada, no plano nacional e internacional, capaz de agregar todas as forças sociais que acreditam nas liberdades, nos direitos, na diversidade, na soberania nacional, na democracia e na autodeterminação dos povos. Melhor dizendo, que recoloque o ser humano como centro principal da vida em sociedade. O homem superior ao mercado.
Rogaciano Medeiros é jornalista, integrante do Movimento Comunicação pela Democracia

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