Complexo Hospitalar de Cuiabá

Complexo Hospitalar de Cuiabá
CENTRAL DE ATENDIMENTO 55 65 3051-3000

Águas Cuiabá

Águas Cuiabá
Av. Gonçalo Antunes de Barros, 3196 - Carumbé Av. Gonçalo Antunes de Barros, 3196 - Carumbé 78050-667 - Cuiabá / MT 0800 646 6115

Prefeitura de Várzea Grande

Prefeitura de Várzea Grande
AV. CASTELO BRANCO, 2500 - CENTRO SUL, VÁRZEA GRANDE

Tribunal de Contas de Mato Grosso - Presidente Dr. Guilherme Maluf

Tribunal de Contas de Mato Grosso - Presidente Dr. Guilherme Maluf
Rua Cons. Benjamin Duarte Monteiro, Nº 01, - Ed. Marechal Rondon - Centro Político Administrativo - Cuiabá-MT

quarta-feira, 25 de março de 2020

"Coronavírus, ecologia integral, fraternidade humana e informação. Entrevista com Antonio Spadaro"

A informação, a conexão com o mundo, a figura de impacto global do Papa Francisco e a redescoberta da Igreja doméstica neste momento em que a pandemia exige sacrifícios e esforços por parte de todos, nunca esquecendo as mensagens positivas: foi sobre isso que Formiche conversou com o Pe. Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica. O pontificado do Papa Francisco diante da pandemia, a informação como instrumento de maior coesão social, a Igreja doméstica mais do que a referência aos ritos como urgência de fé nestes tempos.
O interlocutor certo para tentar unir tudo isso junto talvez seja o Pe. Antonio Spadaro. O que o papa da Laudato si’ e do documento sobre a fraternidade nos diz sobre o coronavírus? E como a revista jesuíta, os escritores do papa, que, como revista italiana, se tornou global, com edições em muitas línguas e correspondentes, nos sugere para ler uma emergência que é tão nossa quanto de todos os outros povos do mundo? E a Igreja doméstica, que perspectiva oferece para os fiéis que dificilmente poderão se curvar à ideia de viver sem ritos?
Encontrar uma ordem é indispensável, mas certamente não é uma ordem de importância.
Eis a entrevista.
Padre Spadaro, a informação é chamada a uma grande prova, parece quase ter recuperado a sua função para a sociedade. Os esforços são evidentes. No entanto, ainda resiste alguma tendência à espetacularização? Isso é um risco? Consegue-se veicular a consciência dos dados globais?
A informação desempenha uma função fundamental para a sociedade, hoje mais do que nunca. E é chamada a uma grande prova neste momento. O risco, obviamente, é o de “espetacularizar” o que está acontecendo. Por motivos de trabalho, acabo ouvindo pessoas de diversas nações todos os dias, de diversos continentes, e, no fim, o que acontece é que os discursos que são feitos sobre estes tempos são sempre os mesmos. Fala-se da mesma coisa, da pandemia. Isso significa que, de algum modo, o vírus uniu o mundo, mas também significa que o mundo corre o risco de “espetacularizar” o que está acontecendo. Às vezes, até mesmo os dados e os números parecem visar mais à sensação, ao sensacionalismo do que à informação. Obviamente, há muitos casos de informação equilibrada, ponderada.
O importante destes tempos é não visar a ter audiência, mas sim a dar dignidade a este momento. Ajudar os outros. Este é um grande momento em que podemos expressar a nossa capacidade de coesão social: para mim, isso deve ser dito de todas as maneiras. E este tempo deve ser enfrentado com criatividade e generosidade. São muitos os casos de solidariedade digital ligados à crise que vivemos. A La Civiltà Cattolica, assim como outras publicações, por exemplo, decidiu abrir gratuitamente os seus próprios conteúdos. De todos os modos, a informação – e as infraestruturas que a permitem devem ser protegidas, especialmente neste momento: é essencial. Basta pensar, em um momento como este, no qual muitos acessam as informações pela internet, no que poderia significar uma interrupção da rede: um gravíssimo problema para a democracia.
Usam-se as palavras e as imagens para construir pontes entre nós ou você também vê a tendência de usá-las como pedras contra países, culturas, segmentos sociais?
Este deve ser um momento de grande unidade: as divisões não devem prevalecer. A comunicação pode ajudar a difundir uma mensagem que ajude a ter comportamentos virtuosos. Nesse sentido, as palavras podem ser usadas viralmente como pedras, isto é, podem ser lançadas contra as pessoas em seu próprio benefício. Basta elevar o tom para ser ouvido neste momento em que as pessoas têm medo. Incitar no medo das pessoas hoje é fácil, produz consenso, mas é totalmente irresponsável. Também assistimos a uma contínua retórica da guerra, como se estivéssemos em guerra, como se fosse preciso uma atitude militar, militarista. Não estamos em guerra. É preciso refutar essas retóricas. Aqui não é preciso inventar um “inimigo”, mas há uma grave emergência sanitária. Entende-se imediatamente como esse tipo de retórica é funcional a um projeto político perigoso: é preciso resistir.
Hoje a palavra da informação é chamada a construir pontes; pontes invisíveis entre as pessoas que estão fechadas em casa, mas precisamente por isso mais dispostas à comunicação, à informação, portanto, a serem sujeitas à influência das palavras. Por isso, hoje é preciso responsabilidade. Para mim, o modelo do jornalista é o médico. São os médicos que estão tratando as chagas, as feridas. Ainda em 2002, o então cardeal Bergoglio havia comparado o comunicador ao bom samaritano, isto é, àquele que cura as feridas, que, acima de tudo, as toca. Com coragem, com força, com decisão, com verdade, o objetivo deve ser o de tocar o outro para curá-lo. Portanto, certamente, trazendo à tona os problemas, denunciando se necessário, mas não para dividir o país, mas sim para uni-lo.
A última edição da revista La Civiltà Cattolica nos informa sobre os números incríveis relativos às vítimas de outras infecções, ainda hoje. Números que abalam. O Pe. Andrea Vicini escreveu na revista de vocês: “Estima-se que, em 2019, 37,9 milhões de pessoas no mundo foram testadas positivas com o vírus HIV. Se considerarmos as estimativas gerais desde o início da pandemia, as pessoas soropositivas são 74,9 milhões, com 32 milhões de mortes causadas pela Aids. Calcula-se que, em 2018, 3,2 bilhões de pessoas vivam em áreas de risco de transmissão da malária em 92 países do mundo (especialmente na África subsaariana), com 219 milhões de casos clínicos e 435 mil mortos, dos quais os 61% eram crianças menores de cinco anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 10 milhões de pessoas em todo o mundo adoeceram de tuberculose em 2018, com mais de 1,2 milhão de mortes, dos quais 11% entre crianças e adolescentes com menos de 15 anos”. Ler isso hoje levanta uma questão: por que essa informação não desperta o nosso interesse ?
É interessante tentar compreender quais são os números dos vários contágios, das várias epidemias da história. Às vezes, os números nos surpreendem, porque são números muito altos em comparação com os atuais. Houve momentos ainda mais dramáticos do que este. Então, trata-se de entender melhor, não para subestimar, absolutamente não, mas entender melhor as proporções é muito interessante para compreender como esses eventos de pandemia se sucederam na história e que reações houve. Isso nos ajudará a ver os erros que foram cometidos e, portanto, também a evitá-los hoje. No entanto, é preciso considerar uma coisa: esta é a primeira pandemia no tempo das mídias sociais, uma pandemia no tempo da informação global, quando o mundo é um único país, no qual o que ocorre na Itália é imediatamente conhecido na China ou nos Estados Unidos. E não só: a informação é difundida capilarmente e também as emoções ligadas às informações. Isso muda muito a percepção do que ocorre.
Além disso, esta é a primeira pandemia no tempo da hiperconexão física, graças à democratização das viagens aéreas intercontinentais. Por que a pandemia se espalha? Porque as pessoas viajam. Então, as inúmeras viagens espalharam o vírus. Os aviões levam você de um lado ao outro do mundo em não mais do que 12 horas, e, assim, uma infecção contraída em um lugar do planeta chega ao outro lado do mundo em meio dia. Isso deve nos fazer refletir sobre como o mundo mudou e, portanto, sobre como é absolutamente urgente e necessário pensar no nosso modo de considerar o fenômeno da pandemia.
Como disse Bill Gates, acredito que quatro anos atrás, concentramo-nos completamente na dissuasão nuclear e esquecemos que o fim do mundo poderia vir não de uma guerra nuclear, mas sim de uma pandemia terrível. Houve epidemias muito fortes no mundo. Todos nos lembramos do Ebola, por exemplo. No entanto, essas epidemias tiveram origem em lugares onde não havia grande trânsito de pessoas não locais e, portanto, permaneceram muito localizadas. Mas percebemos que hoje cada vez mais dificilmente isso pode acontecer. O mundo está mais unido, e, portanto, a questão das pandemias deve ser abordada de uma maneira muito mais sistemática.
O slogan “Tudo ficará bem” o convence? Não se deveria usar este tempo para refletir sobre por que tudo não está indo bem? O Papa Francisco nos disse isso ao falar sobre a evasão como causa da falta de unidades de terapia intensiva que existiam antes dos cortes. Refletir sobre isso nos ajudaria a entender melhor a Laudato si’?
O slogan “Tudo ficará bem” me convence, no sentido de que eu gosto de usá-lo, porque acredito que é importante enviar mensagens positivas. Neste momento, são necessárias mensagens de esperança. E também estou convencido de que sairemos desta. Acabei de ouvir um amigo de infância que agora é médico em Bérgamo. Ele estava desesperado pela situação, por aquilo que vê na sua frente, mas também estava convencido da necessidade de alimentar a esperança para seguir em frente. Certamente, porém, é necessária uma reflexão crítica. É importante entender por que tudo isso aconteceu, até porque o fato de ter acontecido agora não significa que não poderá acontecer em um futuro próximo. Portanto, devemos orientar a nossa reflexão sobre as causas, mesmo remotas, que fizeram com que esse vírus tenha se espalhado. Há algo no nosso cuidado da casa comum, na nossa relação com a natureza que não funciona. A ciência pode nos ajudar a compreender que não podemos seguir em frente assim.
Ainda sobre o papa: alguns escreveram que o Ocidente renunciou à sua liderança cultural. A Laudato si’ e o Documento sobre a Fraternidade são os terminais de um pensamento forte que oferece uma bússola a todos?
Como mencionei, estou em contato com várias pessoas, de vários continentes, de diversas religiões ou outras pessoas não religiosas. O que me impressiona é que todos, ou pelo menos aqueles que estão refletindo sobre o que está acontecendo no mundo, afirmam que o mundo não tem liderança. Isto é, não existem figuras no mundo que possam ser considerados líderes de impacto e de valor global, exceto uma. A única pessoa que emerge a partir desse vazio é o papa, o Papa Francisco. Repito: crentes, não crentes, crentes de diversas religiões reconhecem nele a única figura de impacto global. Felizmente, existem muitos líderes de impacto local, nacional. Mas o único líder de valor mundial continua sendo Francisco, porque a sua mensagem é recebida globalmente e é uma mensagem de unidade e de força neste momento difícil. Mas também é uma mensagem que soube tocar nos temas diretamente ligados a esta pandemia.
Como eu dizia antes, é evidente que é preciso pegar novamente nas mãos a encíclica Laudato si’, encíclica sobre a casa comum que não é apenas uma encíclica sobre o ambiente, mas que também diz respeito à doutrina social da Igreja. Ela leva a compreender as questões ecológicas que têm um impacto muito forte e devastador sobre a vida nesta nossa Terra e sobre a justiça social. Essa encíclica é um ato de liderança global que supera também as fronteiras entre crentes e não crentes, e indica uma direção. O segundo elemento da reflexão do papa que eu considero muito pertinente para este momento histórico é o da fraternidade humana. Nunca como neste momento, percebemos que as fronteiras, de fato, não têm valor, precisamente porque o vírus as cruza com grande facilidade. Existe uma humanidade que nos faz nos sentir como irmãos, porque compartilhamos exatamente o mesmo problema.
Mas essa situação de pestilências, como foi na história, portanto de pandemias, traz à tona todos os piores instintos: o medo, o egoísmo, tudo o que nos leva a fazer atos que não estão alinhados com a nossa humanidade mais profunda. Posto isso, e dados os riscos aos quais uma prolongada solicitação desses instintos negativos pode nos expor, é preciso, hoje mais do que nunca, de uma reflexão sobre a fraternidade humana, na linha daquela que o Papa Francisco e o Grão-Imã de al-Azhar, Ahmad al-Tayyeb, fizeram há um ano. Há uma fraternidade que supera as fronteiras, e a oportunidade do coronavírus deve nos fazer refletir sobre como essa fraternidade é tangível. Neste caso, revelada pela fragilidade comum. Então, eu diria que a liderança de Francisco parece ser uma liderança espiritual certamente, moral certamente, mas capaz também de indicar a todos uma saída em uma fase tão crítica.
Último ponto. Alguns propuseram que se adiasse a Páscoa para evitar os ritos sem fiéis. O diretor do L’Osservatore Romano, ao invés disso, falou da redescoberta da Igreja doméstica. O que você pensa a esse respeito?
A Igreja sempre falou da família como Igreja doméstica. Vemos isso hoje mais do que nunca: as famílias estão fechadas em casa, e, portanto, quase tudo na vida cotidiana é gerido dentro das dinâmicas familiares, especialmente quando não há pessoas que saem de casa por motivos de necessidade ou de trabalho. Isso nos leva a compreender que a vida religiosa só pode se expressar também em família, e a família se torna o lugar onde a Igreja vive plenamente a sua vida, especialmente quando é impossível ir à igreja para celebrar juntos a eucaristia ou os sacramentos. Certamente, os ritmos entraram em colapso, as liturgias não podem ser vividas com a participação física. Torna-se difícil, senão impossível, receber a absolvição sacramental, precisamente porque estamos em casa, e essa situação deve nos fazer refletir e compreender que a Igreja em muitos lugares, especialmente em tempos de perseguição, sobreviveu graças à fé dos leigos, mesmo sem sacerdotes.
De algum modo, esse vírus nos leva a uma visão menos clerical da Igreja, mais fundamentada na solidariedade, no compromisso, na oração, acima de tudo, por parte dos cristãos: dos cristãos comuns, dos leigos e, portanto, da família. Este é um tempo particular também para a Igreja, portanto, que deve refletir sobre as suas dinâmicas, sobre o que realmente a torna forte e fiel a Cristo. Obviamente, uma parte dessa vida eclesial é vivida no ambiente digital, na internet. Quero sublinhar isso, porque a sua importância hoje emerge como instrumento para conectar as pessoas, para romper o isolamento. É verdade que as famílias estão fechadas em casa e podem viver momentos de oração comum, mas também é verdade que essa mesma oração pode se conectar com a de outros, seja mediante a identificação de momentos comuns – rezar todos juntos em uma cidade, em uma diocese, na mesma hora, ajudados talvez pelo som dos sinos –, graças também à rede.
Às vezes, a rede permite compartilhar as orações e unir-se também às celebrações que podem ser vividas também graças aos vídeos e às condições em rede. Parece-me muito importante neste momento a liderança moral do Papa Francisco, que através das missas cotidianas em Santa Marta, a Audiência Geral, o Ângelus, oferece ideias de oração e de reflexão que, depois, a família pode receber e reelaborar. Portanto, o alimento não falta, também se cresce na comunhão mesmo a distância, graças ao instrumento digital, mas é muito importante este aspecto da vida cotidiana das famílias que dão vida e forma à Igreja de forma plena.
A reportagem é de Riccardo Cristiano, publicado em Formiche e Caminho Político. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ame,cuide e respeite os idosos