DIRETO DA VENEZUELA

DIRETO DA VENEZUELA
Tweets por ‎@infoenlaceweb INSTAGRAM @INFOENLACEWEB

Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso

Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso
Av. André Maggi nº 6, Centro Político Administrativo

Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso

Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso
Endereço: Av. André Maggi, 6 - Centro Político Administrativo

DE OLHO NOS RURALISTAS!

DE OLHO NOS RURALISTAS!
Observatório de agronegócio e políticas ruralistas no Brasil. As notícias com perspectiva social e ambiental.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Covid-19 aumenta pressão sobre população LGBTI+ desabrigada

Centros de acolhimento LGBTI+ nas maiores cidades brasileiras lidam com demandas intensificadas em meio à pandemia. Mas há um consenso: cuidados devem ir além do assistencialismo e gerar políticas permanentes.Mais gente em busca de abrigo, menos dinheiro para distribuir cestas básicas e kits para higiene, e maior pressão psicológica sobre todos os envolvidos. De acordo com especialistas entrevistados pela DW Brasil, são esses os principais desafios para o acolhimento de pessoas LGBTI+ – lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexuais, entre outros indivíduos que não se identificam como heterossexuais e/ou cisgêneros – em situação de rua em meio à pandemia de covid-19.
"A demanda chega mais forte para a gente agora", diz Symmy Larrat, que atualmente ocupa a presidência da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) e coordena na Casa Neon Cunha, em São Bernardo do Campo (SP), um projeto para abrigar a população LGBTI+ naquele espaço a partir de 2021.
"Muita gente foi expulsa [de casa] nesse período [de pandemia], muita gente perdeu o emprego. Para outras [que continuam vivendo com suas famílias], os acirramentos e cobranças chegam com o auxílio emergencial acabando. Os impactos da pandemia estão chegando com muita força na população LGBTQI+, não só no campo da saúde mental, mas no campo do desemprego e da fome", explica a ativista.
Os obstáculos extras impostos pela covid-19 ergueram-se, porém, numa fase singular para as iniciativas dedicadas a oferecer um teto às minorias sexuais e de gênero. Até recentemente, entidades desse tipo mal conseguiam fechar as contas e acabavam cerrando as portas. No entanto, desde 2015, com a primeira ocupação promovida pela Casa Nem, no Rio de Janeiro, organizações voltadas para abrigar pessoas LGBTI+ vêm se estabelecendo e se firmando de modo mais duradouro nas maiores cidades do Brasil.
Essas iniciativas têm no geral a mesma missão, mas são das mais variadas naturezas. A já citada Casa Nem começou como ocupação e desde setembro passado está instalada em um imóvel cedido pelo governo do estado do Rio de Janeiro no bairro do Flamengo, zona sul carioca. Paralelamente, a prefeitura da capital fluminense abriu, em junho deste ano, na Lapa, o Centro Provisório de Atendimento (CPA) IV, o primeiro mantido pela administração municipal do Rio para LGBTI+.
A Casa 1, em São Paulo, está registrada desde 2016 como organização não governamental (ONG) e também atua como centro cultural e clínica social. Ainda na capital paulista, o Coletivo Arouchianos consiste em um grupo informal de pessoas que há quase meia década soma forças e recursos para tentar abrigar mais gente, promover ações culturais, de conscientização, e distribuir cestas básicas.
Cada uma dessas entidades vem encarando a pandemia e as restrições por ela impostas de maneira distinta. A Casa Nem reagiu rapidamente à chegada do vírus ao Brasil e vem se mantendo sem grandes sobressaltos.
Mesmo assim, a ocupação sediada no Flamengo se uniu a dezenas de outras iniciativas similares país afora para formar a Rede Nacional de Casas de Acolhimento LGBTI+ (Rebraca LGBTI+). A aliança surgiu no primeiro semestre de 2020 justamente para redistribuir doações e unir diferentes entidades.
Já o CPA IV teve dificuldades para gerar documentos para as cerca de 40 pessoas ali abrigadas e tem recorrido ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro para tentar acelerar esse processo, fundamental para tornar o público atendido mais independente, inclusive na busca por trabalho formal.
O fundador e coordenador do Coletivo Arouchianos, Helcio Beuclair, afirma que, conforme a sensação de que "o pior passou" se espalhou ao longo do último trimestre, o valor e a quantidade de doações decaíram. "Desde outubro, não conseguimos distribuir cestas básicas", relata.
Até meados de dezembro, o grupo ainda contava quase 100 pessoas que ainda esperavam pela entrega dos produtos. Beuclair também ressalta a importância de se obterem documentos, sobretudo para a população trans, para que todos tenham acesso a serviços públicos de saúde, incluindo eventuais vacinas contra o coronavírus.
Em diversos locais de acolhimento, a pandemia levou estadias temporárias a serem prolongadas e dificultou a admissão de novos moradores, já que nem todos têm acesso a testes para a covid-19.
Na Casa 1, voltada para LGBTIs de 18 a 25 anos, não se notou um aumento na demanda por moradia. Mas a procura pela clínica social da ONG e por atendimento psicológico e psiquiátrico bateu recorde. "A questão da saúde mental está muito forte, mesmo o processo de triagem demanda mais escuta", diz o diretor-executivo e coordenador de comunicação da Casa 1, Iran Giusti.
Por que focar em LGBTI+?
Outro ponto em comum entre todos os entrevistados é que, do total de pessoas que estão sem ter onde morar no Brasil, quem se identifica como LGBTI+ encontra ainda mais barreiras – tanto para voltar a ter um teto quanto para socializar entre outras pessoas na mesma situação.
"Elas foram expulsas de casa ou saíram de casa por causa de situações de violência [motivadas] por serem LGBTs", explica o sociólogo, odontólogo e professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Rodrigo Otávio Moretti-Pires. Ele já supervisionou pesquisas de campo com lésbicas, gays e bissexuais desabrigados em Florianópolis.
"Também entre os moradores de rua, essas questões [de preconceito] explodem", continua o professor. "Mesmo que aquelas pessoas estejam excluídas, por serem todas moradoras de rua, elas não querem estar perto [das LGBTI+]."
"A maior parte dos que se formam na área da saúde vai para o trabalho sem nenhuma experiência com essas pessoas e sem entender nada sobre a questão da orientação sexual e da identidade de gênero, perpetuam o preconceito e a discriminação, e isso afasta a população LGBT dos serviços [públicos] de saúde", aponta Sérgio Ferreira Júnior, que faz pós-doutorado na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Uberlândia (FOUFU) para estudar o perfil geral e de saúde bucal da população trans naquele município mineiro.
"Transgêneros e não binários enfrentam um grande obstáculo quando procuram esse atendimento. São os que menos acessam os serviços de saúde", ressalta Ferreira Júnior. "É uma sobreposição de estigmas: ser LGBT é um estigma, estar em situação de rua é outro. E as unidades de saúde não estão preparadas."
Um estudo apresentado em junho deste ano pelo coletivo #VoteLGBT em parceria com a agência de pesquisa Box1824 introduziu um índice de vulnerabilidade LGBT+ à covid-19. De acordo com o levantamento, os maiores índices foram registrados entre indivíduos trans e/ou pretos, pardos ou indígenas.
"A sociedade é pensada numa ótica cisgênera e heterossexual, não inclusiva. A gente ainda precisa de bandeiras para saber se os estabelecimentos são friendly", diz a fundadora e coordenadora da Casa Nem, Indianarae Siqueira, referindo-se a símbolos usados para indicar abertura a múltiplas orientações sexuais e identidades de gênero. "Mesmo quando vivem nas ruas, as pessoas LGBTI+ vivem em espaços específicos, os outros moradores sabem apontar onde elas dormem, e ocorre muita violência LGBTfóbica porque é um reflexo da sociedade, que é violenta nesse sentido."Larrat, da ABGLT, acrescenta que "há um descrédito de que o poder público dê conta de fazer isso [acolher LGBTI+]". "A gente tem de fazer pela gente. Quando nascem a Casa Nem e a Casa 1, as pessoas percebem que isso é possível, que a gente tem como manter espaços como esses."
A assistente social Evelyn Serra Parente, que coordena o CPA IV, mantido pela prefeitura do Rio, diz compreender as críticas quanto à insuficiência das iniciativas do Estado e propõe que o ideal seria justamente que houvesse mais instrumentos públicos para acolher a população LGBTI+ em situação de rua, incluindo atendimento psicoterápico e combate à dependência química.
"Defendo a criação desses espaços [de acolhimento] de forma temporária enquanto a gente, em sociedade, não conseguir amplamente chegar a uma aceitação de fato. As pessoas ainda são perseguidas, violentadas, o Brasil é o país onde se cometem mais crimes contra LGBTI+", afirma Serra Parente. Segundo ela, o CPA IV abriga cerca de 40 pessoas, 40% das quais vieram de outros estados e três, de outros países – Venezuela e Colômbia. A assistente social também diz que todos os seus colegas, inclusive ela e funcionários de outros CPAs, passaram por treinamentos específicos para lidar com o universo LGBTI+.
Pioneira bem-sucedida
Apontada por múltiplos entrevistados como a mola propulsora da atual leva de casas e centros de acolhimento mais longevos para LGBTIs desabrigados, a Casa Nem vem atravessando a pandemia de covid-19 praticamente ilesa.
Siqueira, responsável pela coordenação do espaço, diz ter sido a primeira organização do tipo a fechar suas portas e estabelecer medidas de prevenção ao coronavírus, antes mesmo de as orientações municipais ou estaduais entrarem em vigor. Além disso, por meio de parcerias e financiamentos, a casa vem conseguindo manter as contas em dia.
Mais ainda: como integrante da já citada rede Rebraca, a Casa Nem tem auxiliado outras iniciativas similares a obterem mais recursos. "Começamos a arrecadar [doações] conjuntamente nas redes", relata Siqueira, sempre reforçando a "maneira anarquista e anticapitalista de atuar" da Casa Nem.
Houve, inclusive, uma expansão: desde novembro, existe também uma Casa Nem em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. No total, as duas casas juntas abrigam mais de 40 pessoas. As principais críticas a essa iniciativa pioneira estão ligadas ao modo de distribuir poder internamente.
"Já fui acusada de criar um 'transtema'", diz Siqueira, usando um neologismo que se opõe à ideia de "sistema", ou "cis-tema", numa referência a pessoas cisgênero – aquelas que se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascer. "Se as pessoas cis e heterossexuais quiserem, podem aprender conosco e serem assistentes da nossa causa. Mas, enquanto não tivermos uma sociedade inclusiva na sua totalidade, que não veja as pessoas independentemente da sua orientação sexual e identidade de gênero, não será possível que pessoas cis e heterossexuais sejam as responsáveis por resolver a vida de pessoas LGBTI+", sentencia a coordenadora.
Apesar dos avanços e êxitos pontuais, os especialistas e ativistas consultados pela DW Brasil concordam que ainda há muito por fazer nessa área. "Neste momento, com a proximidade do Natal, a criação cristã que a gente teve fala mais alto: você se sente mais só, mais desamparado", diz Larrat, presidente da ABGLT. "Não dá para a gente parar agora."
José Gabriel Navarro/Caminho Político
@CaminhoPolitico

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ame,cuide e respeite os idosos