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sábado, 14 de agosto de 2021

Talibã aperta o cerco a Cabul enquanto EUA aceleram retirada do Afeganistão

Insurgentes estão a 50
quilômetros da capital, e embaixada americana destrói documentos sensíveis. ONU expressa preocupação com violência contra mulheres afegãs. O grupo fundamentalista islâmico Talibã intensificou neste sábado (14/08) seu controle territorial ao redor de Cabul, capital do Afeganistão, enquanto refugiados que tentam se proteger da ofensiva dos insurgentes rumam para a cidade e militares dos Estados Unidos aceleram a retirada emergencial de pessoas do país.
Após a segunda e a terceira maiores cidades afegãs terem sido controladas pelo Talibã, Cabul está agora cercada e se tornou o último bastião das forças governamentais do país, que ofereceram pouca ou nenhuma resistência em outros locais.
Os combatentes do Talibã estão neste sábado acampados a apenas 50 quilômetros da capital, o que pressionou os Estados Unidos e outros países a correrem para retirar, por via aérea, seus cidadãos que estão em Cabul, diante do iminente risco de um ataque.
As poucas cidades significativas que ainda não foram controladas pelos insurgentes são Jalalabad, Gardez e Khost, dominada pela etnia pashtun e que não deve oferecer muita resistência.
Combates intensos ocorreram na região de Mazar-i-Sharif, no norte, onde o ex-vice-presidente Abdul Rashid Dostum reuniu sua milícia de combate ao Talibã.
Em Cabul, funcionários da embaixada dos Estados Unidos receberam a ordem de destruir documentos sensíveis, enquanto começam a chegar os primeiros soldados americanos de um destacamento de 3 mil militares enviados ao país para proteger o aeroporto e organizar a retirada de pessoas.
Diversos países europeus, como Reino Unido, Alemanha, Dinamarca e Espanha, também anunciaram na sexta-feira a retirada dos funcionários de suas respectivas embaixadas.
Mulheres sob risco
Para os moradores de Cabul e dezenas de milhares que buscaram refúgio na capital nas últimas semanas, o sentimento dominante é de confusão e medo.
Muzhda, uma mulher solteira de 35 anos que chegou à capital com suas duas irmãs, após fugir da região de Parwan, disse que ela temia pelo seu futuro. "Estou chorando dia e noite", disse à agência de notícias AFP. "Recusei propostas de casamento no passado... Se o Talibã chegar e me forçar a casar, vou cometer suicídio."
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, disse estar "profundamente preocupado" pelos relatos do que as mulheres estão enfrentando em áreas controladas pelo Talibã, que impôs uma versão fundamentalista do islã ao Afeganistão durante seu período no poder, de 1996 a 2001.
"É particularmente pavoroso e de partir o coração ver os relatos dos direitos das garotas e mulheres afegãs, conquistados com dificuldade, serem arrancados delas"
Ofensiva rápida
A magnitude e a velocidade da ofensiva do Talibã chocou os afegãos e a aliança militar liderada pelos Estados Unidos, que gastou bilhões no país após depor o grupo fundamentalista do poder há 20 anos, como reflexo dos ataques terroristas de 11 de setembro.
O avanço do Talibã acelerou-se nos últimas dias, com a captura de Herat, no norte, e, horas depois, de Kandahar, no sul, região de valor simbólico e espiritual para o grupo fundamentalista.
Alguns dias antes da retirada completa dos Estados Unidos, determinada pelo presidente Joe Biden, alguns soldados, unidades e até divisões inteiras das forças afegãs se renderam, o que deu aos insurgentes ainda mais veículos e armas para impulsionar sua rápida ofensiva.Abdul Nafi, morador de Kandahar, disse que a cidades estava calma, após forças do governo a abandonarem para buscar refúgio em instalações militares, de onde estavam negociando os termos de uma rendição. "Saí de casa de manhã, e vi bandeiras brancas do Talibã na maior parte dos quarteirões da cidade", disse.
Perfis de apoio ao Talibã em redes sociais divulgaram imagens de equipamentos militares que estavam em bases do governo e foram controlados pelos insurgentes, como blindados, armas pesadas e até um drone.
O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, fez um pronunciamento na televisão neste sábado, no qual afirmou estar reorganizando as Forças Armadas do país e buscando soluções políticas para o conflito.
"Não permitirei que a guerra imposta às pessoas provoque mais mortes", disse, sentado em frente a uma bandeira afegã. "Iniciei uma ampla consulta no governo com os mais experientes, líderes políticos, representantes do povo e parceiros internacionais para alcançarmos uma solução política razoável tendo em vista a paz e a estabilidade do povo afegão", afirmou.
Retirada americana
Apesar do esforço frenético para retirar pessoas do país, o governo Biden segue insistindo que a tomada total do país pelo Talibã não é algo inevitável.
"Cabul não é neste momento uma área sob ameaça iminente", disse na sexta-feira o porta-voz do Pentágono, John Kirby, que reconheceu que os combatentes do Talibã estavam tentando "isolar" a cidade.
Diversos helicópteros estão fazendo viagens entre o aeroporto de Cabul e instalações diplomáticas dos Estados Unidos espalhadas na chamada zona verde da cidade, 46 anos após helicópteros terem retirado americanos de Saigon, marcando o fim da Guerra do Vietnã.
A retirada de Cabul organizada pelos Estados Unidos abrange milhares de pessoas, como funcionários da embaixada e afegãos e seus familiares que temem represálias por terem trabalhado como intérpretes ou em outras funções de apoio aos Estados Unidos.
O porta-voz do Pentágono disse que a maior parte dos militares que irão coordenar a retirada estarão a postos neste domingo, e "serão capazes de retirar milhares por dia" do país. "Capacidade não será um problema", afirmou.
bl (AFP, DW)cp
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