Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso

Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso
Av. André Maggi nº 6, Centro Político Administrativo Cep: 78.049-901- Cuiabá MT.

Salesiano Santo Antônio

Salesiano Santo Antônio
Rua Alexandre de Barros, 387, Chácara dos Pinheiros Cuiabá

Seu título está na mão

Seu título está na mão
1º Título de Eleitor Decreto nº 3.029 - 9.1.1881

CÂMARA MUNICIPAL DE CUIABÁ

CÂMARA MUNICIPAL DE CUIABÁ
Praça Moreira Cabral - Centro - s/n - Cuiabá-MT

domingo, 17 de abril de 2022

"'Plataformização' do trabalho é uma bomba-relógio política” Edison Veiga

A precarização crescente do trabalho por meio de apps está criando um campo fértil para a extrema direita? Essa é a hipótese que a antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado pretende investigar com ajuda europeia. Foram 18 de meses de preparação e um longo processo seletivo, em que a antropóloga, socióloga e cientista política brasileira Rosana Pinheiro-Machado consolidou conhecimentos e abordagens acumuladas ao longo de seus 20 anos de carreira como pesquisadora. Além, é claro, de uma hipótese que há muito a instiga: estariam os trabalhadores informais, estruturados em plataformas tecnológicas, formando uma base de sustentação à ascensão de extremistas de direita pelo mundo?
Ela se refere a motoristas de aplicativos, entregadores, vendedores de produtos on-line, etc. "Sempre me intrigou muito o que fazia com que esse trabalho ‘plataformizado' levasse as pessoas para a direita. [As razões permeiam] toda a natureza do trabalho e como ele se reconfigura sem patrão, trabalhando por si próprio e de forma isolada. Isso favorece a vinculação com ideias neoliberais, amparadas pela crença somente no mérito próprio”, comenta Pinheiro-Machado.Professora e pesquisadora na Universidade de Bath, no Reino Unidos, a brasileira recebeu no mês passado um investimento de 2 milhões de euros, do European Research Council (ERC) para, ao longo de cinco anos, esmiuçar essa questão. No momento, está organizando o trabalho, que deve começar de fato em setembro. Pesquisadores doutorando e de pós-doutorado, nas áreas antropologia e ciência de dados, serão deslocados para pequenos vilarejos nos interiores de Brasil, Índia e Filipinas.
A ideia é que eles vivam uma imersão e realizem entrevistas e pesquisas de campo. No fim, esse material será tabulado e se transformará numa base de dados que pode se tornar uma ferramenta para a compreensão desse fenômeno dos tempos atuais.
Pinheiro-Machado concedeu entrevista para a DW Brasil.
DW Brasil: Por que a ideia de estudar a relação entre trabalhadores informais com políticos de direita?
Pinheiro-Machado: É uma questão que sempre atravessou minhas pesquisas anteriores. Eu estudei camelódromo e empreendedorismo popular por uma década, já mostrava isso há 18, 19 anos atrás. […] Depois, com os motoristas de Uber, isso se torna mais latente, aí já são os bolsonaristas [apoiadores dos discursos do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de extrema-direita]. Sempre me intrigou muito o que fazia com que esse trabalho "plataformizado” levasse as pessoas para a direita.
[As razões permeiam] toda a natureza do trabalho e como ele se reconfigura sem patrão, trabalhando por si próprio e de forma isolada. Isso favorece a vinculação com ideias neoliberais, amparadas pela crença somente no mérito próprio. E quando não dá certo, é culpa dos governos. Não há uma discussão de classe, da precarização do trabalho… Isso sempre foi uma base, uma linha que juntou as minhas pesquisas nos últimos anos.
O que a gente viu no fim dos anos 2010 foi que essa lógica não é nova e é muito forte em países emergentes, com toda uma lógica de incentivar o empreendedorismo popular, a fomentação de novas camadas médias. Há uma alinhamento dessas classes que estão acima da linha da pobreza mas são precarizadas, odeiam a identidade de classe trabalhadora e cultivam uma base moral religiosa.
No Brasil você tem os evangélicos, na Índia o conservadorismo hindu, nas Filipinas também o cristianismo. O conservadorismo moral se alinha muito forte ao individualismo e aí há as figuras dos autoritários que pegam essas classes precarizadas, autoexploradas, de pessoas que trabalham 20 horas por dia na esperança de ganhar dinheiro. E essas pessoas passam a cultivar interesses em comum com esses autoritários. E nunca foi feita uma investigação que explique esse nexo de forma clara.
De onde veio a premissa de que haja relação entre trabalhadores informais e políticos de direita?
É uma questão já clássica da sociologia, que já aparece tanto no [filósofo Karl] Marx quanto no [sociólogo] Max Weber: a ideia do lumpemproletariado, que não está sindicalizado, regulado. E, então, acaba se alinhando ao status quo. Isso aparece no processo de individualização e modernização na teoria do Weber.
A religião também leva a isso, pelo processo de individualização, do "você com Deus”, no trabalho segundo a ética protestante, na ideia de trabalhar duro para vencer. […] Mas existem outros fatores que vamos observar junto a isso: primeiro, evidentemente, o próprio isolamento, a não regulamentação e a ideologia de que a ideia de trabalhar "plataformizado” é o "por si próprio”. São trabalhos profundamente isolados em que as pessoas passam muitas horas sozinhas, constantemente postando e lendo [o que é postado nas redes sociais], porque o trabalho é no ambiente digital, dominado por populistas. […]
Tem também a questão dos influenciadores digitais e o alinhamento político a eles. Não estão vendendo só produtos, estão prometendo um estilo de vida, e isso é altamente político. Por fim, o aspecto da desinformação, que é potencializado sobre pessoas trabalham sozinhas e expostas ao ambiente digital o dia todo. […] Conforme a pessoa vai se "plataformizando', crescendo e empreendendo, mais ela segue políticos de extrema direita. Ou ao contrário. O que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Provavelmente os dois, porque o mundo é complexo. Queremos mostrar todos esses caminhos.
Nos últimos anos, nove pesquisadores apoiados pelo ERC foram laureados com o Prêmio Nobel. Isso serve como um endosso inicial à sua pesquisa?
Dá um peso de fato maior. O Nobel é resultado de pesquisa de ponta e reconhece os melhores de cada área. Não estou dizendo que sou genial, muito pelo contrário. Mas houve um processo de preparação: foi um objetivo de vida meu conseguir esse financiamento porque isso redimensiona a minha vida em muitos aspectos.
O Nobel é algo tangível que mostra as possibilidades após ter um financiamento individual dessa grandeza. […] O ERC, a gente brinca, é o Nobel da academia, é aquilo que os pesquisadores europeus querem e respeitam muito. […] É um processo tão rigoroso [para ser contemplado com o financiamento] que o resultado vai ser pesquisa de excelência. Não quer dizer que eu seja excelência, mas sim que o processo me ajudou a entender o que é excelência.
Nesse sentido, o financiamento, além de viabilizar o projeto em si, também abre portas para o futuro da sua carreira?
Sim. Esse financiamento é um divisor de águas na minha vida justamente pela importância que ele tem. […] E espero que consigamos ajudar a revelar quais são as potencialidades políticas desse processo de "plataformização”. Se nossa hipótese estiver certa, trata-se de uma bomba-relógio, uma máquina política. E precisamos entender como funciona essa máquina.
Edison Veiga/Caminho Político
@caminhopolitico @cpweb

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ame,cuide e respeite os idosos