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segunda-feira, 10 de julho de 2023

Por um pensamento planetário por Yuk Hui

"A humanidade já começou a fugir da Terra e a se lançar rumo à matéria escura, da qual não sabemos praticamente nada. A diversificação é o imperativo para um pensamento planetário que está por vir, e isso, por sua vez, exige um retorno à terra", alerta o filósofo. "O pensamento planetário não é a iluminação zen ou a revelação cristã. É o reconhecimento de que estamos e permaneceremos em estado de catástrofe. De acordo com Schmitt, Deus já passou seu poder ao ser humano, e o ser humano o passou às máquinas. O novo nomos da terra deve ser pensado de acordo com a história da tecnologia e seu futuro. Resta discutir como desenvolver novas práticas de design e corpos de conhecimento, desde a agricultura até à produção industrial, que não atuem a serviço da indústria, mas sejam capazes de transformá-la".
A opinião é de Yuk Hui, professor de Filosofia da Tecnologia e da Mídia na City University de Hong Kong. Obteve seu doutoramento no Goldsmiths College London, na Inglaterra, e sua habilitação em filosofia na Leuphana University Lüneburg, na Alemanha. É autor de várias obras que foram traduzidas para uma dezena de idiomas, inclusive ao português, como “Tecnodiversidade” (Ubu Editora, 2020). Eis o artigo.: 1. A condição planetária
Se a filosofia foi levada a termo pela planetarização tecnológica (como Heidegger proclamou em seu tempo), ou mais recentemente por uma virada histórica impulsionada pela computadorização planetária (como muitos autores entusiastas têm proclamado em nosso tempo), então nos resta refletir sobre sua natureza e seu futuro, ou, nas palavras do próprio Heidegger, sobre o “outro começo” (anderer Anfang). [1] Nesse outro começo que Heidegger buscava, o Dasein humano adquire uma nova relação com o Ser e uma relação livre com a tecnologia. Heidegger reposiciona o pensamento voltando-se aos gregos, o que pode parecer, à primeira vista, reacionário: esse passo atrás é suficiente para enfrentar a situação planetária que ele mesmo descreve? Duvidoso. Para Heidegger, escrevendo nos anos 1930, essa planetarização implica uma falta planetária de reflexão [2] (Besinnungslosigkeit), que não se limita à Europa, mas é aplicável também, por exemplo, aos Estados Unidos e ao Japão. [3] Essa falta de reflexão é ainda mais óbvia hoje. Mesmo que a filosofia europeia se reinvente completamente, as tecnologias disruptivas continuarão em alta em todo o mundo. Qualquer proposta de retorno ao Ser pode parecer embaraçosa, senão ridícula. [4] Não porque a Europa tenha chegado tarde demais, mas porque chegou cedo demais e não tem mais controle sobre a situação planetária que ela começou. Essa situação lembra o que Heidegger disse sobre o outro significado do fim da filosofia: “O começo da civilização mundial baseada no pensamento da Europa ocidental”. 
A reflexão (Besinnung) não pode ser restaurada por meio da negação da planetarização. Em vez disso, o pensamento tem de superar essa condição. Essa é uma questão de vida ou morte. Podemos chamar esse tipo de pensamento, que já está tomando forma, mas ainda não foi formulado, de “pensamento planetário”. A fim de elaborar como será o pensamento planetário, assim como sua relação com a planetarização tecnológica, devemos entender melhor a essência da planetarização.
Qualquer proposta de retorno ao Ser pode parecer embaraçosa, senão ridícula - Yuk Hui
Tweet: Acima de tudo, a planetarização é a mobilização total de matéria e energia. Ela cria diferentes canais para todas as formas de energia (petrolífera, hidráulica, elétrica, psíquica, sexual etc.) acima e abaixo da terra. Ela é amplamente intercambiável com o termo “globalização”, ou aquilo que Bruno Latour chama de “globalização-menos”, que não é uma abertura, mas sim um fechamento de várias perspectivas. [6] A globalização tem aparecido sob o disfarce de um embaçamento de fronteiras, uma abertura aos outros que facilita os fluxos de capital e de materiais. No entanto, é em grande parte impulsionada por considerações econômicas. A conquista dos mercados chegou junto com a conquista da terra: a história mostra que o comércio e a colonização sempre estiveram profundamente interligados. Quando a terra, o mar e o ar são apropriados e circunscritos com fronteiras – um indicador de que os Estados-nação modernos são a única realidade pós-colonial – a única forma que a colonização pode continuar assumindo é a conquista de mercados. A diplomacia moderna alimenta esse processo por outros meios além da invasão militar direta, ou seja, o “soft power” ou a “soft culture”.
A conquista de mercados significa uma mobilização mais rápida e suave de bens materiais e capitais, o que necessariamente cria déficits e superávits comerciais. Depois da Guerra Fria, a globalização acelerou enormemente essa mobilização. Hoje, a civilização não pode mais suportá-la. Imagine um país cuja população teve um aumento de quase 50%, de menos de um bilhão para 1,4 bilhão de pessoas, em apenas 40 anos. Quanta exploração da terra, do mar e dos seres humanos foi necessária para acomodar esse aumento de população e de consumo? Do outro lado do globo, o desmatamento da Amazônia aumentou 16% durante o mesmo período de 40 anos e agora [em 2020] acelerou para três campos de futebol por segundo no governo Bolsonaro. Quantas espécies desapareceram permanentemente como resultado disso? A globalização significa o esgotamento dos recursos à medida que a espécie humana caminha rumo à aceleração máxima. A fim de manter essa ordem geopolítica, algumas partes interessadas continuam negando que uma crise ecológica sequer esteja ocorrendo. Quer gostemos ou não, a “planetarização” provavelmente é a condição mais significativa do filosofar hoje. Essa reflexão não nasce de uma demonização da tecnologia moderna ou de uma celebração da dominação tecnológica, mas sim de uma vontade de abrir radicalmente a possibilidade da tecnologia, hoje cada vez mais ditada pela ficção científica.
A “planetarização” provavelmente é a condição mais significativa do filosofar hoje - Yuk Hui
Tweet; 2 A dialética do desconhecimento
A mobilização total é possibilitada pela rápida aceleração tecnológica; ela também exige que humanos e não humanos se adaptem a uma evolução tecnológica cada vez mais intensa. A indústria da tele-entrega de alimentos e suas plataformas online fornecem um exemplo claro de como a carne humana é usada para compensar as imperfeições dos algoritmos. O nômade humano-bicicleta é impulsionado por pedidos feitos com aplicativos humanos. Tudo isso é impulsionado por uma psicogeografia ditada pela fome e pelo desejo. O nômade arrisca a morte por acidente de trânsito para evitar a punição pelos dados. O entregador sofre mais misérias quando sua bicicleta estraga do que quando seu corpo orgânico sofre. A dor vem da incapacidade de alcançar cotas de eficiência para pedidos e entregas. O que Marx descreveu na fábrica, que ainda ocorre na Foxconn e em outras empresas, é generalizado em todas as indústrias. Em outras palavras, os trabalhadores de todas as áreas são automaticamente monitorados e punidos pelos dados. Essa prática promete uma governança mais eficiente em todos os níveis, dos objetos aos seres vivos, dos indivíduos ao Estado, com base na calculabilidade universal. Também exibe aquilo que Heidegger chama de Gestell, ou “enquadramento”: a essência da tecnologia moderna segundo a qual cada ser é considerado como uma reserva permanente ou um recurso submetido à calculabilidade.
A Gestell se expressa como política cinética, que Peter Sloterdijk descreve como a característica-chave da modernidade. Sloterdijk associa esse cinetismo à “mobilização total”, um termo que Ernst Jünger notoriamente usou para descrever a cinética da guerra. [7] A mobilização total se expressa em termos de “disponibilidade” e “acessibilidade” de materiais, informações e bens financeiros. No exemplo da entrega de comida, a mobilização total permite ostensivamente que a comida mais “autêntica” apareça na mesa da cozinha de uma pessoa, com todas as suas promessas de calor e sabor. A mobilização total das mercadorias é também a circulação do trabalho humano e seu duplo, ou seja, a negação da “natureza”. Essa mobilização total também estabelece uma episteme e uma estética globais, movidas pela necessidade de aceleração. A realização do mundo como um globo tem sido um projeto metafísico contínuo desde a antiguidade. A conclusão desse projeto por meio da tecnologia moderna não implica uma mudança suave para um mundo pós-metafísico livre da metafísica. Pelo contrário, essa força metafísica mantém seu controle sobre o destino do ser humano.
Uma pergunta constante permanece: para onde está indo essa força metafísica? Ou, para onde ela deseja ir?
Argumentei em outro lugar que a globalização, que tem sido celebrada como um processo unilateral de colonização, está agora se confrontando com uma dialética do senhor-escravo. A relação senhor-escravo é finalmente subvertida pela superdependência de um determinado país tanto como fábrica quanto como mercado. O desejo (Begierde) do “escravo” por reconhecimento (que é nacionalista neste caso), realizado por meio do trabalho e da tecnologia, subverte a relação senhor-escravo. O “senhor”, despertado desse momento contraditório, tem que restabelecer seus próprios limites e reduzir sua dependência, para que o escravo não possa mais ameaçá-lo e volte a ser seu subordinado. Esse momento poderia ser facilmente interpretado como o fim da globalização: o Ocidente precisa se reposicionar e reorganizar suas estratégias, localizando e isolando as ameaças à sua dominação. A globalização pode ter chegado ao fim, não pela robustez de um movimento antiglobalização (que se extinguiu silenciosamente), mas porque, como uma etapa histórica, expõe mais defeitos do que os benefícios que promete. Esse momento contraditório e conflituoso ainda não foi resolvido ou, melhor, reconciliado, no sentido hegeliano. A palavra alemã para reconciliação, Versöhnung, que o próprio Hegel usa, expressa plenamente esse processo: uma parte da equação terá que reconhecer a outra como pai e se identificar como filha.
A globalização pode ter chegado ao fim, não pela robustez de um movimento antiglobalização, mas porque, como uma etapa histórica, expõe mais defeitos do que os benefícios que promete - Yuk Hui
Tweet: Não importa quem desempenhe o papel de filho nesse drama, a natureza da política cinética pode não mudar. Enquanto perdurar a forma anterior de globalização, os países escravos apelarão à globalização e acusarão os países senhores de agirem contra a globalização. Quando eles se separam dos países escravos, os (antigos) países senhores também sofrem: perdem os benefícios de que gozavam no século passado. Uma consciência infeliz emerge e permanece sem solução. Podemos observar essa dialética de longe, mas ainda temos que questionar sua natureza e seu futuro. Não temos nenhuma razão para culpar Hegel – pelo contrário, devemos continuar admirando seu método de empurrar a racionalidade rumo ao Absoluto –, mas devemos analisar os erros cometidos por seus seguidores. Em primeiro lugar, o movimento dialético do espírito do mundo é apenas uma reconstrução histórica. Assim como a coruja de Minerva que abre suas asas apenas quando o crepúsculo cai, sempre já é tarde demais. E, quando se projeta para o futuro, esse movimento dialético poderia facilmente ser vítima do Schwärmerei (excesso de sentimento ou entusiasmo), como ocorreu com Francis Fukuyama com seu “O fim da história e o último homem”. Em segundo lugar, o movimento dialético senhor-escravo não muda a natureza do poder, apenas a configuração do poder (caso contrário, a sociedade burguesa que sucedeu à feudal não deveria ter sido abolida). Como na clássica dialética hegeliano-marxiana, vemos que a vitória do proletariado não vai além de seu próprio domínio do poder. Essa dialética pressupõe uma superação do senhor, sem perceber que o mesmo poder se reencarna em um novo monstro. Esse é um ponto cego comum entre os marxianos. O desejo de superar o “senhor” pode resultar em nada mais do que o “triunfo” do mercado, porque então os países senhores serão acusados de ser antimercado e antiglobalização. Essa mudança de poder é apenas uma promessa de abertura do mercado, levando a uma planetarização e a uma proletarização mais intensas. Estamos diante de um impasse que demanda transformações fundamentais de conceitos e práticas.
Como na clássica dialética hegeliano-marxiana, vemos que a vitória do proletariado não vai além de seu próprio domínio do poder. Essa dialética pressupõe uma superação do senhor, sem perceber que o mesmo poder se reencarna em um novo monstro – Yuk Hui
Tweet: 3. O imperativo da diversificação
O pensamento da globalização, que é ao mesmo tempo o início e o fim do impasse, não é um pensamento planetário. O pensamento global é um pensamento dialético baseado na dicotomia entre o global e o local. Tende a produzir monstros gêmeos: o imperialismo, de um lado, e o fascismo e o nacionalismo, de outro. O primeiro universaliza sua epistemologia e ética; os segundos exageram as ameaças externas e os valores tradicionais. A pandemia do coronavírus acelerou a recente mudança geopolítica. Ao anunciar o fim da globalização, a pandemia não promete uma visão verdadeira, exceto pelo sentimento de que ela marca o início de uma época de catástrofe. Pelo contrário, todos os apelos para salvar o “ancien régime” que ressoam entre as elites não passam de uma luta por uma política regressiva.
FOTO LEGENDA: do nascer da Terra visto da órbita lunar em 1968 pela Apollo 8. (Goddard Space Flight Center (GSFC) / NASA/Divulgação)
O artigo foi publicado por e-Flux Journal, n. 114 e Caminho Político, de dezembro de 2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
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